segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Inocente


 Inocente

-Não estou zangado com ela. Mas fica sabendo que ao fazer amor percebi que …como hei-de dizer? Já sei. Ela não estava comigo,  apenas o corpo estava ali …duro como pedra…para mim  estava com a cabeça  noutro lado ou seja em ti. Dá para rir não dá? Ou noutro ou nos dias de hoje…sei lá com outra ou com outro.
-Fica sabendo que eu não sou homofóbico, mas que me mete impressão ver homens com homens isso sim…pensando melhor , ver nunca vi mas que já desconfiei do sobrinho da Mafaldinha , isso já. Não interessa….isso é outra história…eles que se arranhem…   mulheres com mulheres é outra coisa…como hei-de dizer há mais por onde escolher percebes? Estás a rir  para mim? Isso é a gozar? 

És incostante  como as mulheres, umas vezes  estás minguante, deve ser quando viras o rabiote para o sol e á noite apareces assim.  Hoje estás cheia. Não me digas que foi o sol que  te chateou  durante o dia e agora quase que rebentas... 
-Vê-se logo que também és mulher. Conversa de mulheres. Estavas a dormir ou fizeste de conta que dormias? Ou doía-te a cabeça? Tretas e mais tretas. Pois minha menina digo-te que o Sol não é parvo nenhum e eu também não.  

-Eu vou-te contar o que se passou comigo. A Terezinha  andava esquisita. Há dias que nem me falava direito. Se eu sabia  porquê? Juro-te que não sabia.  Não sabes quem é a Terezinha? È a minha mulher.   Se não fosse minha mulher eu não estaria nesta situação melindrosa na qual    estou inocente.

Domingo passado passou pela nossa casa a Tia Joaquina e levou uns bolos  deliciosos  como faz  habitualmente e quando  me viu petrificou-me com o olhar. Fiquei  logo mal humorado e pensei  com que  raio de moscardo elas foram picadas?

-Pensei de  imediato que aqui havia coisa de mulheres, mas para meu espanto quando resolvi ir tomar um cafezito perto do redondo ,o meu tio e padrinho chamou-me quase num sussurro.
-  Alcino, chega aqui por favor.

E eu meio encolhido e com  frio, lá  fui ter com ele.
- Então homem é verdade o que se diz por aí?

Pensei logo com os meus botões: - estou cozido e respondi-lhe que não sabia ao que se referia.
Não é que  o macaco do homem desatou-se  a rir e não parava de  dar-me palmadas nas costas e sempre a dizer:
- tem juízo homem. As mulheres só trazem problemas e a Terezinha  é uma santa.

  
Uma santa dizia ele. Aquele homem é parvo. Santo sou eu. A verdade seja dita a minha Terezinha tem cá um feitio.
Teimosa como um raio. Dúvidas de mim?  Acredita se quiseres ,no entanto  sou incapaz de lhe fazer  qualquer  malandrice. Juro por Deus.

-Vou  contar-te o que aconteceu a seguir. Fui á Farmácia e o Doutor, que é muito amigo da minha irmã quando me viu entrar sorriu-se todo e deu-me uma palmada nas costas e lá foi murmurando:

-então amigo Alcino é verdade o que se diz por aí? Tenha juízo mulher há só uma. A sua..  

-Acredita amiga fiquei com uma raiva ao parvo do médico que a minha vontade era dar-lhe um murro e deitá-lo ao chão mas contive-me e esbocei um sorriso mais fechado do que aberto.

-A história ainda não acabou. Saí da farmácia com a  aspirina que a Terezinha me tinha  pedido  e nem dois  passos tinha dado quando  me apareceu  mesmo á minha frente o Velhaco  do Antunes.

-Sabes quem é o Antunes?  É o irmão da Terezinha. Não sei se estás a ver.  Mais um, não? Este vai dar-me que fazer.

Olhou para mim com uma cara fechada ou melhor dizendo com uma cara de cu. Levantou o braço e apontou-me o dedo e foi dizendo:

- lembra-te que dia é hoje. A partir de hoje não me dirijas  mais uma palavra.

-Estás a rir-te? Pois fica sabendo se ele não fosse irmão dela partia-lhe a cara toda. Sabes qual é o problema? É viver numa terriola e não é para me gabar mas a minha família é muito conhecida e boa gente.  

-Ai meu Deus vem aí mais problemas. Sabes quem vem ali ? Vou-me esconder.

- Estás fora de casa Alcino? O que se passa? Hoje vais dormir no pátio? És mesmo estúpido.

Alcino cada vez encolhia-se mais disfarçando que estava arranjar uns sacos de batatas que estavam encostados á porta de sua casa.

Rosita toda espevitada e muito sensual mexia as ancas rebolando-se completamente e entra na casa ao lado. 

Fecha a porta de casa com força fazendo eco na calmaria da noite.

-Esta mulher é mesmo estúpida. Nem de graça a queria. Provocadora, metediça, bisbilhoteira, parvalhona. Se não fosse ela eu não estava aqui fora ao relento. 

-Sabes o que ela foi contar á irmã da Terezinha ? E a irmã contou ao irmão e este ao meu padrinho…e por aí fora. Odeio-os a todos..vou-me divorciar..Ninguém faz mais pouco de mim .

-Há dias que um homem sente-se tão  cansado desta vida que ás vezes engana-se e… como  naquele dia estava  muito escuro confundi  a  Rosinha com a Teresinha. As casas são próximas e quando aquela provocadora passou  por aqui  meti-lhe a mão no rabo mas estou inocente porque ela fez o resto...e depois sabes como são as mulheres  foi contar  o resto á bisbilhoteira da melhor amiga e esta que  é a melhor amiga da irmã da Teresinha que por sua vez contou á minha Terezinha… e aqui estou eu ao relento…vou-me divorciar..  





sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Fiel


 O fiel

-E tu pensas amigo que eu não sei? É claro que sei. Vejo nos seus olhos e nos seus gestos. A sua boca diz uma coisa mas o corpo diz outra.

-Sabes está muito frio hoje e vai começar a nevar, ouvi na rádio. Se me perguntares como é que  me sinto em relação ao que tu sabes, muito sinceramente há dias que não sei quem sou, não sinto nada e estou-me a borrifar para tudo e para todos. Acredita que se não tivesse este corpo para alimentar e esta alma para descansar mandava tudo para o raio da avó dela.

-No outro dia ela ao contar-me apenas algumas coisas corriqueiras eu entendi logo tudo. Achei piada como ás vezes o ser humano é tão idiota, quer  tanto omitir as coisas que nem se apercebe que basta utilizarmos um pouco de lábia  ou habilidade com a argumentação usada numa frase que o imbecil ou  a imbecil confessa tudo.

-Está muito frio e hoje ouvi na rádio que ia nevar. Mas amigo quero dizer-te que fiel  companheiro  como tu não existe. Não tenho  ninguém. Imagina que sou cornudo , são as tais coisas que pensamos que só acontecem aos outros mas isto hoje é banal. Caso sim caso sim. 

O meu amigo Francisco contou-me que foi para a cama com a Flor. Bela mulher aquela. Um corpo pequenino mas cheio de curvas, um olhar felino, uns cabelos pretos, uma boca pequena e sensual.  

Raios me partam, sonhei com ela tantas vezes deitada ao meu lado enrolada nos meus lençóis devorando aquela boca pequenina e doce e devido á tal, ao mafarrico nunca o fiz. Lutei contra os meus sentimentos mais animalescos e não o fiz. E porquê ? Porquê? Para não a perder. Burro, burro. Achas normal? 

Todos o fazem. Conheces o Pedrão ? Esse filho da policia foi com a Alberta, a Luísa, a Petra…imagina e tantas mais. E sabes a melhor a mulher dele nem sonha. Tem-lhe uma devoção, uma paixão como nunca vi.

-Mas queres saber amigo que um dia destes o João disse-me que eu estava enganado. Completamente enganado em relação á mulher do Pedrão.Ele  viu-a junto ao mar da Torre muito agarradinha com o Simão. 

Amigo não acredito em ninguém. Esta espécie humana está num patamar abaixo dos animais. Converso contigo porque tu só  enrolas-te com a areia. Com essa não tenho eu problemas. Hoje mesmo vou-me enrolar-me nela .

-Está muito frio e vai nevar. A tia Joaquina avisou-me para me agasalhar bem. Coitada da velhota, é boa senhora e muito religiosa. Disse-me que no tempo dela as coisas eram bem diferentes. 

Os homens andavam com outras e as mulheres sabiam-no e mesmo assim elas eram muito devotas ao seu homem. Outros tempos. Puras donzelas. As coisas hoje são bem diferentes.

- Mas sabes companheiro vou contar-te uma coisa. Há muito tempo no inicio do meu casamento uma loirita apareceu na caverna do Tinoco. Tinha caído do  céu e não tirava os olhos de mim. Confesso que dessa vez não resisti e fomos até á praia da Tininha e…foram momentos maravilhosos.

  
 A tarde passou em segundos. Aquilo foi …não sei ainda hoje explicar que raio foi tudo aquilo. --Tu viste amigo e assististe. Mas muito sinceramente depois de tantos anos nunca pensei que o destino se vingaria. 

Eu Frederico Mendes de Sousa Coelho, de boas famílias  sou agora cornudo! Não acredito. Não mereço. Esta história com a loirita não foi nada, nunca mais pensei nisso, não significou nada, só me lembrei agora porque aquela cabra me traiu. Eu não merecia. Um homem trabalhador , fiel, responsável, dedicado não merece este emblema na testa. ---Maldita seja, maldita.

-Vai nevar amigo, ouvi na rádio. Estás-me a ouvir filho da mãe pois molhaste-me. Ri-te, ri-te. Amanhã não te venho visitar.      

-Esqueci-me de te dizer que acerca de três anos tinha o meu filho uns cinco anos quando a ama dele foi buscá-lo á minha empresa. Linda de morrer. Ruiva com um olhar traiçoeiro mas de fazer perder a cabeça e um peito que parecia convidar-me para um longo passeio, entrou no meu gabinete e sentou-se numa cadeira toda insinuante. Um homem inofensivo como eu… não tive alternativa nem nenhum santo que me salvasse. 

Tu queres saber amigo o que ela me fez?
Levantou-se e inclinou –se sobre mim e mostrou-me aquele peito fenomenal e murmurou com uma voz de anjo:
-A que horas trago o seu filho Sr. Coelho?
-O que achas amigo? Aquela ordinária percebes atirou-se a mim. O que fazias no meu lugar?   -Diz-me seu ordinário. Ri-te, ri-te.
-Sabes o que eu fiz?
-Agarrei-a pela cintura e devorei-a. Momentos inesquecíveis aqueles. Foi maravilhoso. Aquela ruiva, aquele olhar, aquele corpo.
-Vai nevar amigo ouvi na rádio.
-Digo-te colega o destino é tramado. Eu não merecia uma traição. Um homem como eu dedicado á família. 

Naquela casa nunca faltou nada. Acredita absolutamente nada. Esta ruiva foi uma coisa insignificante apenas me lembrei dela porque o meu filho faz hoje anos e a atual ama é uma miúda. Deus me livre não quero problemas não passa de uma miúda.

-Sabes companheiro um dia destes vi-a a passar perto da minha empresa agarrada a um miúdo. É moreninha e muito bonita, Deus me livre podia ser minha filha.

 -Desgraçado ri-te, ri-te da minha desgraça. Aquela cabra vai deixar-me. Mas que lhe fiz eu?

-Vou-te contar uma coisa muito engraçada. Conto-te apenas a ti porque sei que és o único que me é fiel

-No dia que fiz quarenta anos fui com o Pedrão, o Chico, o Zé Maria e o Tiago até uma cervejaria na cidade. Aquilo sim, foram  momentos inesquecíveis. Apareceram por lá três garotas, umas mulheraças. Altas, bem feitas. Todas morenas. 

Tu queres saber o que uma delas  me fez? Devorou-me completamente. Fiquei esquelético apenas com aquele olhar. Um homem como eu, pai de filhos, sério, trabalhador e vem uma escanzelada brincar com os meus sentimentos?

-Sabes o que lhe fiz? Estás a rir-te? Seu filho de um raio. Amanhã não venho visitar-te.

-Eu vou  contar-te o que fiz àquela escanzelada. Deixei-os a todos na cervejaria, agarrei-a pelos braços até ao meu carro e…

-Foram instantes inimagináveis…porque te ris imbecil?

-Aquela morena levou-me á perdição…

-Está a chover e a cair granizo mas na Serra já neva há três dias. Eles disseram na rádio.

-Maldita, repara amigo eu não merecia esta traição. Este emblema.

-O meu filho? Esse não me quer ver. Um pai dedicado como eu, um homem de família, fiel, responsável e trabalhador .

-É como te disse amigo. Os olhos dela mentem e  o corpo, esse não o vejo há séculos.

O vento soprava forte e começava a cair granizo. O mar estava crispado e as ondas batiam forte nos rochedos. O silêncio da noite era quebrado por várias vozes.

-oh Coelho, Coelho, Coelho

-Estou a vê-lo.

Perto do mar avistava-se   um corpo de um homem  junto a uns rochedos. As roupas estavam rasgadas e ensanguentadas e todos corriam naquela direcção...pois podia ser o Coelho.
 




quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A velhinha



A  velhinha

A velhinha jazia naquela grande  cama de ferro   sem pronunciar palavra alguma. Os cobertores exalavam a um odor especial.
A sala era enorme. A luz do dia entrava pela fresta da janela velha e corroída pelo tempo. A madeira do chão da sala rugia.
O guarda-fatos tinha um espelho. O espelho era grande e  assustava-me. Para lá do espelho existiam pessoas. Estas a qualquer momento podiam sair de lá. Eu tinha medo.
O vento soprava lá fora. 
E aquelas  pessoas permaneciam dentro daquele espelho e olhavam para mim fixamente. E depois brotavam dele  como água de uma fonte. Eles eram muitos e  caminhavam tão rápido!

A velhinha continuava imóvel. Os seus cabelos brancos pareciam seda. A sua boca pequenina deleitava-me e comovia-me.
O seu corpo franzino fundia-se com os cobertores, com a cama, com a sala. O espelho, esse reluzia e assombrava-me.

De repente a voz da minha mãe penetrava toda a sala quebrando com todo o silêncio e com todo o mistério  daquela tarde.

A  velhinha já não dormia. Minha mãe dissera-me que ela estava morta e eu acariciava-lhe o rosto e a minha mãe não deixava. A palavra Morte não fazia sentido para mim.  Morte? O que é a Morte?

Ouvia-se uns passos, umas vozes e finalmente apareciam uns rostos. Rostos fechados e carrancudos. Os dois homens olhavam para a minha mãe e de seguida para mim.

Semi-fechavam as portadas das janelas. Arrumavam para os cantos da sala as cómodas grandes e antigas.

Sentia-me estranha. O cheiro dos cobertores estavam a propagar-se pela sala. Tinham um cheiro especial, indefinido. Este odor ficara-me para sempre associado á palavra Morte.

A sala escurecera, a luz do dia esvaíra-se. O vento acalmava.


Eles vinham  buscar a minha velhinha. Ela era linda. Era  minha. O meu coração de menina apertava cada vez mais.

O espelho ameaçava-me. A minha mãe mentira-me. As pessoas  entravam e saiam do  espelho. Todos queriam levar a velhinha mas  eu não deixava.

A minha querida velhinha…

E da boca da minha mãe saíra o nome Maria.

Ela era a minha Tia Maria.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O Despertar


O Despertar

Ela continua na velha casa de frente para o mar com o sorriso de sempre e com a serenidade habitual.
Está no mesmo quarto com os mesmos móveis. Um ou outro foram mudados de lugar.
Os cortinados são novos e alguns bibelôs foram comprados há pouco tempo.
O cão ladra baixinho de tão velhinho que está. Pula e mexe o rabo lentamente, em câmara lenta e olha ternamente para ela.
Tudo naquela casa continua na mesma. Aquele sossego, aquela calmaria, aquele conforto, aquela quentura.
O sol entra pelas janelas aquecendo a alma daquele recanto mas lá dentro existe um coração irrequieto, como um mar revolto, como um céu que relampeja, como um vento do maninho que uiva fortemente e leva tudo pelo ar.
O mundo velho quer dar lugar ao novo mas o coração dela fraqueja, está fraco e o corpo cansado.
Resta-lhe apenas esperar…Quem sabe talvez dias, meses ou anos mas nada será como dantes.   

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Lembras-te


Lembras-te?

Aquele sitio que tu tão bem conheces amigo…Lembras-te ? Aquele lugar em que estiveste comigo a falar longas horas?  onde  ninguém se refugia, em que as almas terrenas fogem dele, acham-no, a ele, o cemitério um  sitio fastidioso, triste, assustador, frio, arrepiante, desafiador, arrogante, ditador…Lembras-te? Durante a nossa conversa ela, a tal, estava sempre presente.

Estávamos na casa dela e ela está em todas as nossas casas mas  ali é a sede dela. Tu sentiste-te mal mas eu bem…Sabes o que eu senti? Uma paz, uma tranquilidade, uma leveza …e o sol estava alto e eu corri tão feliz para junto daqueles que ainda amo tanto… E tu achaste tudo tão estranho e criticaste…mas depois compreendestes que afinal é difícil esquecer de um dia para o outro um amor assim…e acompanhaste-me até ao pouso deles…o definitivo…e choraste comigo.

O sol continuava alto e um leve e meigo ventinho se pôs e passou próximo de nós e sussurrou-nos:
- Até a um dia…
Ficamos arrepiados…nós sabemos que foi ela…quisemos fugir mas para quê? Ela está sempre presente em nós. Tu sabes amigo eu já não tenho medo dela, só ás vezes confesso. 
Tenho mais medo de estar deste  lado, a que todos chamam Vida, que por vezes é muito mais imprevisível e assustadora.

E a luz do dia ainda estava forte e continuou e eu não queria sair dali, confesso que  também achei  estranho, algo me prende àquele sitio…e tu  disseste-me para ter cuidado pois ela chama  por mim.. Ficaste assustado e quiseste fugir …e pensaste que eu estava louca mas digo-te amigo que não troco aqueles momentos fugidios para estar com os outros…os outros…o barulho…a complexidade da sociedade, o poder, o dinheiro, o frenesim da vida. E tu perguntaste com os olhos esbugalhados: - Estás louca? trocas a vida por isto?
E eu ri-me e disse-te:
- que vida? qual vida amigo? Tu vives?
O que é viver?  
 Parir um filho ? Nascer ? Amar? Coabitar?   Tudo isto se resume em viver e já pensaste que em todos estes momentos está presente o sofrimento e a morte, não seria  melhor resumir tudo a um momento e saltar a vida? Desde que nasces caminhas para ela, a tal, a que todos têm medo e durante o percurso que fazes desde o teu nascimento até ela padeces tormentos. E para quê tanta aflição? Para terminares em braços com ela, rodeado nela, inevitavelmente.   

E começaste a correr. E eu ri-me e depois solucei…perdi outro amigo…mais um que me acha louca… e pensei que perder, fugir, sentir, chorar, rir, ganhar…é a vida …e a outra, ela, a tal acompanhou-me até casa como habitualmente…     



terça-feira, 3 de julho de 2012

Memórias da infância



Era Inverno.
A tarde estava fria.
A chuva batia nas vidraças. Trovejava.
Os trovões eram fortes e secos. Faziam faísca.
A minha mãe sentada num banco de madeira na cozinha, tricotava.
A minha tia rezava.
Na janela do meu quarto avistavam-se os campos ensopados da chuva.
A nudez das árvores entristeciam-me. O vento gemia. A casa velha e grande era assustadora.
O choro que se ouvia era do meu sobrinho.Um bebé. Espreitei-o.
A minha tia continuava a murmurar uma Avé Maria e um Pai-Nosso. As rezas faziam com que o temporal fosse para longe, para as serras ou para os lugares desertos - dizia ela várias vezes e eu acreditava.
Os panos de renda tricotados pela minha mãe estavam quase terminados.
As ruas estavam desertas. O vento soprava.
O bebé estava acordado. A minha mãe preparava um biberão de leite.
Eu observava atentamente os gestos cheios de ternura com que ela lhe dava o leite.
Deitava o bebé no berço enrodilhado nos cobertores. Ele dormia.
Eu tinha muito sono e enrolava-me junto dela a saborear os seus carinhos.












A menina que conhecia o mar

A menina conhecia o mar, os prados, as planícies verdes,as árvores, as flores, as plantas, os pássaros, outros  animais, os riachos, o rio e a sua linda casinha amarela.

Conhecia a mulher mais bela do mundo; a sua mãe. A mais doce criatura do universo; a sua avó; o mais sábio dos sábios; o seu pai.  

Conhecia a canção mais ternurenta  do planeta ; cantada pela sua mãe   que a afagava quando tinha sono. 

Conhecia as histórias mais bonitas da terra; as que a sua avó inventava. E tinha todo o tempo do mundo para criar, inventar, pensar, meditar, raciocinar com o seu pai.

E nas manhãs serenas e tranquilas acompanhava-o até á beira mar. Com as mãozitas agarradas ao seu progenitor, deleitava-se perante aquela imensidão de água azul. E de vez em quando passava um barquito ao longe que parecia tão pequenino que ela chegava a duvidar da sua existência. 

Mas o seu pai explicava-lhe o quanto os sentidos nos iludem. E falava de filosofia,  das leis da física,da ciência, da matemática  que ajudavam-na a entender melhor o mundo  que a rodeava.

E a menina que conhecia o mar foi crescendo e  saiu  do seu casulo:Foi conhecendo novos mundos e tudo aquilo que implica. Foi aprendendo coisas novas, foi  conhecendo  a história e cultura  de  outros povos, foi viajando por terras longínquas; umas áridas e outras férteis, foi aplicando os seus conhecimentos de geografia, de cosmologia, de astrofísica e tantos outros saberes..

E a menina amadureceu ao ver tanto mundo e tanta coisa. Viu e sentiu demasiado sofrimento nos  povos, nas crianças, nos idosos, no ser humano.. Assistiu a muitas injustiças e desigualdades sociais. Descobriu o quão era terrível viver longe da sua terra.

E a menina que conhecia o mar sentiu-se impotente. E pensava o porquê  de  o pai não lhe ter contado muita coisa. Os porquês, as dúvidas, as angustias, o querer saber e compreender resmas de coisas. E lembrou-se novamente do progenitor e dos seus ensinamentos.    

Sentia-se triste, desolada…e numa singela tarde a menina faz o seu primeiro poema. E depois outro e outro e conta ao mundo o que viu e ouviu.  E os seus poemas gritam, cantam, falam, choram, padecem, pedem aos homens, aos Deuses, ao Universo para pararem com tanto sofrimento.

E a menina que só conhecia o mar, tornou-se poetisa…. ,


terça-feira, 29 de maio de 2012

A ultima viagem


A ultima viagem



O pobre passarito abandonado não sabia como recomeçar a viver. 

Aquela triste e longa viagem levara-lhe tudo. Perdera os amigos, os companheiros e a doçura dos seus pais. 

Estes  não aguentaram as vicissitudes daquele tortuoso e sinuoso  caminho. Tempestades,  frio,  chuva,  calor,  imundície do cheiro a morte,o odor  a sangue, a  terra seca, dura, fria, pastosa, cruel, inconstante, movediça, lamacenta, alagadiça e cinzenta…e não resistiram e foram sugados pelo solo, comidos e corroídos, carcomidos  e consumidos. MALDITA VIAGEM, pensava o passarito.
E como se não bastasse o rasto dos amigos esfumara-se no vazio daquele húmus apodrecido e nojento.  

Tinha fome, sede, ávido e sedento de um carinho, de uma palavra amiga. Queria ter uma visão assombrosa, nem que fosse por um minuto para ouvir um gemido, um choro, um sussurro, um murmúrio de alguém vivo da sua espécie ou de outra  qualquer. 

Precisava, queria, necessitava de falar, de dizer, de ter, de querer, de acreditar que não estava só…

Mas o passarito sozinho, solitário, triste, vazio, enfraquecido, perdido naquele inferno não aguentou e…meio perecido, meio vivo e esfolado pelas quentes e fortes temperaturas daquela amaldiçoada terra,  finalmente vê o vulto dos seus pais que o agarra, beija-o, abraça-o, acariciando-o, não aquelas penas queimadas mas a sua alma. 

Porque o passarito também tinha alma, era gente, amava, sentia e penava.       

Meu pobre e triste passarito.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Usar a nossa liberdade


Liberdade

Um tema discutível e complexo – como o aborto, a eutanásia, homofobia, ideologias politicas, xenofobia, etc   e todo e qualquer assunto que esteja relacionado com o ser humano. 

Ao falarmos em liberdade é inevitável não falar nos direitos humanos, tema este que abrange um leque muito vasto de assuntos.

No nosso quotidiano surge-nos dúvidas constantemente como: Agi bem? Agi mal? O que é o bem? O que é o mal?

Logo as minhas escolhas estão intrinsecamente ligadas á  minha autonomia e ao meu livre arbítrio.
Muitos filósofos têm contribuído com a sua opinião acerca de determinados conceitos que tradicionalmente já estavam pré-definidos como por exemplo o Bem e o Mal.

Em princípio todo o cidadão comum percebe o que é agir bem e o que é agir mal. Mas  estes conceitos acabam por estarem  dependentes  das crenças, dos hábitos, do meio, da cultura,  do contexto histórico ou época em que cada povo está inserido etc.

O racismo e a escravatura por exemplo foi defendido e praticado durante décadas e não eram considerados ou vistos como um crime.

Atualmente e felizmente  é considerado um atentado aos direitos humanos.

E com isto quero dizer que se as minhas opções  dependem somente de mim e que a minha liberdade deveria ser sempre  usada de forma a não prejudicar o outro;  simultaneamente a minha pessoa e as minhas decisões  muitas vezes sofrem influências da sociedade em que estou  incluída ou   interligada, como posso ser coagida ou obrigada a agir em conformidade com as suas ideologias quer politicas, religiosas e económicas. 

Por isso podemos verificar através de conhecimentos passados e presentes   que na maioria das vezes praticam-se  atentados e crimes horrendos contra a humanidade precisamente devido a determinadas culturas e crenças completamente abomináveis. 


Se ser livre é agir e decidir de maneira a  não implicar ou não interfir com o nosso semelhante e vice versa ao ponto de salvaguardarmos   a nossa   dignidade, respeito,  e os nossos  Direitos como pessoa, cidadão etc, então somos livres.

E com esta pequena conversa quero dizer que afinal liberdade  significa sermos responsáveis  pelas  nossas ações , como é um desafio permanente e diario para todos nós.  







segunda-feira, 7 de maio de 2012

Foi apenas um sonho




Foi apenas um sonho
ou uma premonição ?

foi um sonho
um sonho amargo e com um sabor a ângustia
e com um cheiro a tristeza
e com as mãos cheias de nada

e o vazio preencheu o meu ser
chamei por ti...
chorei...
e agarrei-me à tua ausência 
e agarrei-me a nada

e o nosso destino disse:
- ele está aqui no nosso meio
e então vi a tua sombra
e o meu peito ferido e rasgado
gemeu de saudade.

e perecido estavas
desaparecido...no meio do nada. 


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Reflexões-Vinicius de Moraes/júlia Barbosa


Vinicius de Moraes

 "A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."

Reflexão de Júlia Barbosa

Quanto a mim não consigo estar neste mundo sem amar. Amar a natureza, amar os amigos, a família, um projeto, algo….Mas se tenho medo de amar? Claro que tenho…Amar o outro, o amigo, o pai, o filho, a mãe, o irmão ,o companheiro, o mundo, os outros, o desconhecido...
Se tenho medo ? Sim tenho medo…muito medo… porque  amar significa tudo que o mundo tem de melhor e de pior. Angustias, tristezas, sofrimento, alegrias, êxtase, saudades, desilusões, conflitos,  tranquilidade, paz…quietude, serenidade, entrega total…e não pedir nada em troca a alguém que necessariamente um dia pode-nos deixar…Tudo é eterno como tudo é finito. O amor é paradoxal…   
No entanto, preciso disso tudo, tenho que amar …não sei viver sem essa coisa que uns chamam amor, outros amizade, outros paixão..e inevitavelmente vivo, amo e morro…mas vivo e sinto e morro e ressuscito…sempre…




sexta-feira, 20 de abril de 2012

Conto - Mundos Paralelos


CONTO – MUNDOS PARALELOS


Estavam todos a brincar quando ouviram um barulho estridente próximo do velho poço. Correram de imediato para o local de onde vinha aquele ruído agudo. Olharam uns para os outros sem saberem o que fazer. 
O chão que rodeava o poço tremia como de repente alguém quisesse brotar dele. Uma névoa esbranquiçada e opaca instalava-se aos poucos formando um círculo e um vento suave  deslizava à volta deste deixando os irmãos paralisados e inertes.

João o mais velho dos três irmãos foi o mais destemido e com coragem para tocar naquela névoa mas apenas conseguiu sentir uma massa com viscosidade deixando-o assustado.

O Pedro e Maria estavam aterrados e colados ao chão sem murmurarem uma única palavra. Do interior do círculo surgiam  vozes de pessoas. Maria puxava pelo João agarrando-o fortemente e abraçava os dois irmãos para os proteger.
Envolvidos por um frio gélido que os  deixava  atordoados Maria não largava os irmãos.
Os ramos das árvores da quinta eram cobertos  por uma neblina. As vozes lentamente tornavam-se mais nítidas e definidas. Uma bela melodia fazia-se ouvir e uma voz de uma criança chamava pela mãe.      

Os troncos das árvores assumiam uma cor esverdeada e com um brilho indescritível. As flores cintilavam de tal forma que ofuscavam os olhos. A relva mexia-se formando suavemente uma ligeira ondulação.   

Os irmãos deixam de ser observadores deste espetáculo e começam a fazer parte dele. O círculo desaparecera e dera lugar a uma belíssima e vasta planície. Não muito longe deles uma bonita e melancólica  senhora encontrava-se sentada  no chão sobre  uma pequena saliência  com um petiz ao colo cantarolando num tom baixo para o menino.

O menino  extasiado   mexia nos cabelos dela e ela acariciava-o com ternura.

Maria estava espantada.Era   inacreditável mas aqueles bonitos cabelos ruivos e aquele rosto suave não lhe eram estranhos.. A sua tia nunca lhe fora  indiferente como o seu amado primo.

Pedro e João recordavam-se do acidente que houvera acerca de uns meses quando a tia conduzia o seu carro e a ama ia sentada no banco detrás com o primo.

Um camião viera contra eles e  o choque fora inevitável entre os dois veículos, morrendo os três.


Maria pensava que estava noutro mundo e não conseguia entender o que estava acontecer.  Da sua boca saíra-lhe:
- tia , tia
Mas a tia não a ouvia.

E  um ruído forte fez-se ouvir e um vento violento enrolava  os três adolescentes  abruptamente  transportando-os até ao jardim de casa onde tudo começara.  

- Pedro, Maria e João venham jantar.  

Eles não entendiam. Não estavam magoados, nenhum arranhão  visível. Estariam loucos? Que mundo era aquele? Como explicar tudo isto aos pais ?  Existirá  um mundo paralelo a este ? Afinal o que acontecera realmente ?

Conto por
Júlia Barbosa






 ENCONTREI UMA PESSOA PERFEITA

Á s 9horas de um sábado tomei o pequeno almoço com o Pedro , um sobrinho meu. Fiquei deliciada, pois ele sabe contar anedotas como ninguém e tem um carisma que perto dele ninguém fica mal disposto.

Ás 11h despedi-me dele e fui ter com a minha amiga de infância Carolina. Conversamos longamente sobre as nossas dúvidas existenciais, angústias, tristezas e segredos. Sei que esta amizade nunca vai acabar. O que às paredes confesso também o posso fazer com ela.

Às 13h 40 m fui almoçar com o meu companheiro. O almoço estava óptimo e revivemos um pouco o romantismo,  que se vai perdendo  por vezes  durante o nosso quotidiano.

Às 15h 00 estava caminhando á beira mar e a desfrutar daquele cheirinho gostoso a maresia. Nesta caminhada acompanhava-me uma pessoa amiga que me conhece desde que nasci. Mariana tem histórias fantásticas relativamente á sua vida profissional. Como viaja muito em trabalho conta-me as maravilhas que vai conhecendo de outros países.

 Às 17 h fui fazer compras a um “lojinha” e encontrei uma colega de profissão. Maria é por natureza muito bem disposta. Tomamos um café e fiquei a par dos seus sonhos e das suas   desilusões. Mas conheço-a  bem e sei que ela ultrapassa qualquer adversidade.     

Às 20h esperava-me em casa alguns amigos e família para jantar. Não existe melhor remédio para descontrair que um bom sarau entre pessoas que estão predispostas para cultivar um bom ambiente familiar e amigo.   

Antes de me deitar conversei com o meu filho João que é um bom ouvinte e fiquei com a certeza que ia ter uma boa noite.

Antes de dormir rezei a algo que me transcende e que me dá tranquilidade.

Cheguei a uma conclusão naquele dia ENCONTREI UMA PESSOA PERFEITA, nas anedotas  do Pedro, na cumplicidade da Carolina, algo no meu companheiro, encanto nas histórias da Mariana, na boa disposição da Maria, no bom ambiente familiar e de amigos, no amor que sinto pelo meu filho e finalmente na fé que ainda  tenho em algo que “je ne sais pás”.      

Mas nada é perfeito. Se este dia se repetisse muitas vezes também cansar-me-ia e deixava de ter a magia que teve. Esta  aconteceu porque foi  um “momento” único.





quinta-feira, 12 de abril de 2012

A Sereia Ella

Ella deslizava delicadamente sobre a água do mar. Com uma tranquilidade impressionante transmitia uma paz que fazia inveja a qualquer um. Inclinava ligeiramente o seu belo e longo pescoço umas vezes para a direita ora para a esquerda.

Erguia os seus braços longos desenhando com eles ondulações no ar. Abria e fechava os olhos lentamente e em seguida mergulhava nas profundezas do mar durante uns segundos e reaparecia novamente ainda com mais força repetindo várias vezes as mesmas façanhas.

A sua silhueta esguia e a sua cauda belíssima como os seus lindos cabelos negros transmitiam um quadro único e belo no meio da imensidão do mar e no meio do nada.
Todos os marinheiros que passavam pelo estreito de Gibraltar conheciam a história da Sereia Ella que aparecia apenas nas noites de lua cheia.

Aqueles que eram ceticos à sua existência deixavam de o ser a partir do momento da sua aparição, iluminando tudo ao seu redor deixando os homens tão paralisados quanto enfeitiçados com o que viam.

Um dia um pescador chegou à costa esbaforido e ofegante gritando:
- eu vi, eu vi...

E não conseguia dizer mais nada até ao momento em que o seu irmão o acalmou.
Segundo o relato do pobre homem Ella aparecera perto da costa surgindo bruscamente mesmo à frente do seu barco acompanhada com um homem moreno e corpulento e também este tinha uma grande cauda. Os dois dançavam ao som de uma música que vinha do fundo do mar.

Mergulhavam e rodopiavam alheios a tudo e o pescador estupefato e obrigado a presenciar aquele incrível e inigualável espetáculo quase perdera a voz.

E o pescador não se cansava de repetir a história para os seus conterrâneos:
-Ó Manel eu vi... palavra de homem...eu vi um "sereio" grande como o "caraças".





Tritão (Triton) na mitologia grega, Tritão era um deus marinho, filho de Poseidon (Neptuno na mitologia romana) e Anfitrite (Salácia); é geralmente representado com cabeça e tronco humanos e cauda de peixe.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Flor

A cidade estava quase deserta e a  noite gélida e triste.

Na rua poucos transeuntes se viam, alguns indigentes e outros para quem a vida também não sorria.

Caminhava ela  pela rua tão inerte e sozinha .
Abandonada por todos e por ninguém.
Não chorava nem se lamentava. Afinal a vida era apenas dela. Somente dela.
As lágrimas queriam brotar dos seus olhos mas não jorravam.
Isso não lhe era permitido. A vida é para ser vivida e não compreendida.
Flor, assim se chamava. Seu pai tinha lhe dado este nome porque  ela era tão ou mais bela que uma flor.

Menina de uma rara beleza e depois Senhora.
A inveja de todas as mulheres e o sonho de qualquer homem. E foi esta mesma beleza que a traiu. E neste silêncio meditava Flor. E nesta profunda e triste solidão rezava .

Recordava a sua terra. Uma aldeia pequena… onde a mesquinhez e a fealdade de espírito  prevalecia, não se podia ser um cisne ou um pato feio mas sim  um pato igual a tantos outros. Igual seria a palavra de ordem , a preferência e o ideal daquele lugar e daquelas pessoas.

Mas Flor não era o ideal daquela gente. Incomodava, importunava, afligia as esposas e os maridos mais obedientes.

Mesmo assim depois de todas as adversidades ainda sentia saudades dos seus conterrâneos, do mar, daquela calmaria, da terra quente e do sol a escaldar, do correr e saltar naquelas ruas estreitas. O cheiro a doces confecionados pela tia e pela mãe; do barulho dos primos e dos carinhos do pai. Terra linda e brava, a sua terra.

E as lágrimas corriam-lhe agora pelo rosto cansado e envelhecido pelo tempo, porque a saudade apertava e a vida furibunda  a engolia.
  ,

E assim Flor chorava,gritava baixinho, para não ser ouvida, para não incomodar o ideal, o normal, a rotina daqueles que não querem ser incomodados, nem querem ver nem saber de outros mundos em que o sol chega apenas por uma pequena brecha.
E assim percorria a cidade tão fria e gelada, onde o vento acariciava as suas pernas tão magras e secas.

Aqui à  noite na cidade  é nefasto e pecado sentir ou amar. Aqui, na cidade, nestas horas escuras e sombrias apenas se pode desejar e satisfazer  apetites ou apenas determinados anseios, aqueles que no quotidiano e à luz do dia são proibidos e temidos.

Flor já não era aquela flor de outrora que saciava essas almas em busca de um pouco de amor, outras de um simples desejo ou  de adrenalina.  E assim a sua alma e o seu corpo foi sugado e engolido por outras almas, almas estas, também perdidas.







quarta-feira, 21 de março de 2012

Na minha aldeia

Ah ! Que bom é ouvir o chilrear dos pássaros
Sentir a frescura das árvores
e o sol a cintilar

Um cafézinho no tasco
O sussurro dos velhinhos
O cheirinho a terra
E o sino da igreja a tocar

As velhinhas a cochichar
O frenesim da missa das seis
As flores viçosas dos campos
e o corrupio das crianças

Quão maravilhoso é sentir
a natureza a manifestar-se
e a primavera a chegar

O coveiro acenar
O padre a chegar
O sol a cintilar
Na minha aldeia










































quarta-feira, 14 de março de 2012

Comentário do filme Marilyn Monroe

Marliyn Monroe um bom filme que bem poderia ser realizado por Woody Allen. Podemos ver nesta película a fragilidade e a baixíssima auto-estima de um ser humano. Completamente carente e ávido de afetos. O facto de não ter tido uma família e ter sido abandonada pela mesma em tenra idade vai ser determinante em relação ao seu futuro. M.M busca constantemente e de uma forma desesperada por um porto de abrigo. Sempre dependente da opinião dos outros que só enxergam “ um corpo” levam-na ao consumo de drogas e a estados depressivos, prejudicando-a profissionalmente ao ponto de se esquecer dos textos dos filmes que interpreta. Segundo os realizadores que trabalharam com ela o seu maior obstáculo é ela mesma. Falta de confiança na sua própria pessoa, busca incansavelmente no exterior aquilo que só poderia encontrar no seu interior. Tinha tudo para vencer no mundo da representação e isso conseguia-se verificar quando ultrapassava os seus próprios fantasmas e passava de imediato a encarnar soberbamente as personagens. Alvo permanente de inveja por parte das mulheres, cria ao seu redor ainda mais atritos e problemas. A sua beleza estonteante e arrasadora para os homens e insuportável para as mulheres ofuscaram por completo a atriz que tinha dentro de si contribuindo também para a sua destruição.A sua incrível ingenuidade e transparência, torna-a num livro aberto ao mundo o que foi decisivo para a sua entrada no inferno. M.M. não sabia que o “inferno são os outros” – Jean-.Paul.Sartre ou nós mesmos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Confissão

Confissão 

Perdoa-me querida orquídea
Agora que olho para ti no jardim da minha casa
tão só e tão linda
e tu olhas para mim ternamente mas sempre preocupada

Agora que não podes rir nem falar 
sentes uma grande dor e eu também
esta dor que eu sinto
esta dor que tu sentes 
dentro do nosso peito 

porque outrora rias e outras vezes choravas
e que bem eu te conhecia

mas o tal dia, o fatal momento 
que ninguém esperaria 
subitamente te chamaria

e a corrente daquele momento, daquele instante
fez-te um chamamento
e eu não tive tempo para parar o próprio tempo 


Quero pedir-te perdão das profundezas do meu coração
porque outrora fui tão cruel 
a minha ignorância foi mais forte que a sabedoria
e esta última é infinita mas não é para todos
e todo o tempo não chega para apreendê-la

Por isto tudo e por muito mais
e porque o tempo é um bom conselheiro
mas corre sem parar
é um bom mestre
mas implacável

e se num passado
não muito longínquo fomos filhos
no presente somos pais


Amada orquídea perdoa-me
por tudo que não fiz e poderia ter feito
eu sei que me entendes
e eu nem sempre te entendi
e o meu coração sangra
porque ele queria um diálogo

Agora vou regar-te com uma lágrima minha
Porque o sol está abrasador
E desejo-te um bom dia
e um até amanhã á mesma hora e ainda de dia