quarta-feira, 25 de setembro de 2013

saudade

Saudade
Confesso que me lembro raramente de ti porque senti que quiseste partir, por isso respeitei desde sempre a tua vontade e quando recordo o teu rosto vem-me sempre á memória umas feições  tranquilas, serenas e felizes.
Lembro-me como fiquei admirada e contente por ver finalmente que tinhas encontrado a paz que tanto almejavas.
Eu sei que pode parecer confuso e paradoxal  pois quando alguém que nos é tão próximo e perece e sendo o nosso pai, eu   deveria chorar e a tristeza invadir-me até aos dias de hoje mas o teu caso foi diferente.  Senti que a morte para ti foi talvez uma opção e que nunca te assustou, digo isto porque em muitas coisas são tão parecida contigo e que em muitas situações opto por desistir. É mau ? É uma má opção ? Talvez. Apesar de tudo continuei  e tu partiste.
Tu escolheste partir e não foi de repente mas progressivamente e infelizmente eu  não consegui  percepcionar  ou captar o teu estado de alma mas ouve quem a sentisse e eu  não estava sintonizada na mesma estação que tu estavas  e como lamento porque talvez pudesse fazer algo ou talvez não e confesso que te vi tantas vezes a sonhar por metas umas tangíveis e outras  não e continuavas sempre com um sorriso maroto nos lábios.  
Lembrei-me de te escrever hoje   porque senti saudades tuas. Estamos no Verão e com a chegada deste  avizinham-se as romarias ou as festas tradicionais das aldeias e das vilas e ao visitar  a tua última morada deparei-me com os preparativos do tradicional e  habitual festejo   desta terra  e como era uma das tuas preferidas a emoção apertou forte e a tua recordação assolou-me de tal forma que revivi de como tu me pegavas na mão quando era eu ainda  menina e levavas-me a passear por entre  risos e gargalhadas  desta gente que comemora com muita paixão este tipo de festividades.
Lembro-me que  não gostava que tu parasses para conversar com alguém e  sempre gostaste de o fazer e eu  não tinha paciência para tal como é habitual nas crianças irrequietas e então fazia birra quando paravas. Era mesmo pequenina, teria uns dez anos, por aí. Não sei o porquê destas lembranças depois de tantos anos já passados.  Recordo-me também daquelas barracas de farturas e daqueles cafés ambulantes que servem o sempre eterno Sumol que hoje em dia os meninos continuam a preferir e tu também tinhas uma inclinação por esta bebida. 
Nunca pensei dizer ou mencionar esta palavra que raramente a uso porque só a uso quando a sinto e não a vulgarizo como acontece muitas vezes no quotidiano, nos filmes, nas novelas e afins, quero-te dizer que ainda  te amo muito meu querido pai. Se foste perfeito ? Quem é perfeito? Citem-me alguém mas não o quero conhecer. È claro que há atitudes que nos magoam ou que não se coadunam com a nossa personalidade e entramos em conflito.  
 Confesso que contigo entrei  muitas vezes em conflito. Sim, muitas vezes e quantas vezes desejei  ter um pai perfeito ou diferente mas com o passar dos anos vi que isso é uma quimera  ou uma utopia mas estas coisa nunca se vê de imediato pois temos que nos distanciar no tempo e então é que conseguimos  analisar determinadas situações.
Reconheço também que deixavas-me fazer tudo o que  eu queria e  houve  determinadas situações relevantes  que   não o deverias ter feito  mas a vida é mesmo assim e com o passar dos anos, nos mais recentes,   eu sucumbia aos teus caprichos de velhinho porque inconscientemente sabia que a morte estava mais próxima do que em qualquer altura da tua vida. E também percebi que eu era a tua querida menina, a única, e foi muito mesmo muito bom amar-te assim ainda em vida e isso foi recíproco e talvez por isso tenho saudades tuas.
  Adeus pai, até a um dia. Sei-o agora que as tuas lutas aqui neste mundo terminaram. Um grande beijo daquela que te ama muito.  









Adeus Amor

Adeus Amor

Gostava às vezes ser ave mas só às vezes. Para poder voar nos dias mais quentes entre as casinhas das aldeias próximas do mar e nos dias mais frios aconchegar-me nos beirais dos telhados a escutar o lamento do vento. 

Como gostava de voar para poisar numa árvore aqui e acolá, depenicar uma flor atrevida e beijar os teus lábios carnudos e depois sobrevoar o mar e sentir o quentinho das tardes de Verão.

Ser ave e matreiro para ouvir as conversas e as tertúlias das pessoas, como ouvir os seus segredos e confissões, escutar o sonho dos sonhadores, a coragem dos valentes, a renúncia dos corajosos, o lamento dos afortunados, o remorso do consciencioso, o chorar dos arrependidos, a tristeza dos aflitos, a derrota dos bravos, a vitória dos fracassados, as confissões dos apaixonados e o adeus dos enamorados.

Ouvir todos eles para depois esquecer e tornar a voar sobre o imenso mar azul e entretanto voltar para o aconchego do lar cheia de boas vibrações, sentido o âmago da vida no seu melhor e debicar o teu nariz e acordar-te sussurrando ao teu ouvido o que escutei e dizer-te que foi apenas um sonho onde eu tinha asas e que todos os seres humanos são iguais nas suas diferenças e que a vida obriga-os a contornar muitos obstáculos numa luta incansável e nem sempre conseguem numa primeira vez ladear todas as barreiras.


E quando adormeceres as minhas asas voltam a ganhar vida e fujo pela janela voando em direção á vida e sem destino, sem saber se é um adeus ou um até breve e murmurando:

- Adeus amor