quarta-feira, 15 de maio de 2013

mar



Mar 

Mar meu amigo e companheiro 
da minha labuta

Do sol, da chuva, do vento e do tempo
e de mais alento

São segundos, minutos, horas, dias e eu ao relento


Trevas, escuridão, luz e aurora
E assim meus olhos choram


E tudo passa


Mas quando o coração não deixa
E ali fica algo que nos devora
E naquela praia deixa


E tu meu amigo, meu companheiro
abafas-me com o teu cheiro

tão delicioso e matreiro
mergulhas-me no teu seio
e é isso que eu tanto anseio


O teu corpo frio e ondulante
e ás vezes arrepiante
que não tem principio nem fim
e chamas sempre tu por mim
ouves a minha alma
e eu sussurro

na tua até ao confim


mas perdoa-me amigo
se me deito contigo
É porque em ti confio
no teu corpo sem fim
mar meu amigo e companheiro
da minha labuta
e desta luta

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Os trabalhos de casa do menino Paulinho



Os trabalhos de casa do menino Paulinho

Como era habitual o Sr. Fausto passava pelo escritório do meu pai para adquirir os documentos necessários e posteriormente entregá-los aos clientes.

Nesta altura do ano chovia bastante e fazia-se sentir em todo país um frio que penetrava os ossos, de tal forma que só se estava confortável com um bom aquecedor bem próximo de nós.

O meu pai tinha o seu escritório há muitos anos no centro da cidade do Porto e exercia advocacia, ainda não tinha eu nascido. A minha mãe morrera quando eu tinha dez anos e desde essa data fatídica que o meu progenitor levava-me com ele para o seu local de trabalho e ajustava assertivamente com a Tia Dolores as horas exatas em que ela tinha que ir buscar-me e levar-me á escola.


                                                                          ……

Desde que mamã tinha morrido que o meu mundo tinha encolhido. O Papá tinha deixado de fazer festas em nossa casa, desistira de comemorar os aniversários, de celebrar os dias das peregrinações tradicionais da nossa terra, de convidar a família para jogar jadrez que ele tanto gostava, de chamar as minhas primas e os meus primos na altura do Carnaval em que nos mascarávamos. E para agravar mais a situação  resolvera vender a nossa casa de férias situada em Coimbra.

Afastara-se de toda a família restando apenas os seus clientes, a secretária dele a menina Patrícia , a minha tia Dolores, a bábá Teresa a nossa cozinheira, o sempre sisudo Sr.Fausto e eu.

Papá não podia saber o quanto eu detestava o sisudo. Sempre que ele entrava no escritório sorria para mim com a boca fechada e cumprimentava-me cordialmente:

- boa tarde menino Paulinho. Como tem passado?

E eu sorria secamente e respondia:

- Bem, obrigado Sr. Fausto.

Ele entrava para a salinha que dava acesso ao escritório e pedia licença à menina Patrícia para entrar. Fechava a porta do escritório delicadamente para não me assustar e ficava eu na salinha sentado numa secretária antiga a fazer os trabalhos de casa sozinho durante uma eternidade.

Mal o sisudo entrava o meu sossego era permanentemente abalroado por uns barulhos estranhos, alguns risinhos dele e da menina Patrícia  e um ranger de mobílias.


                                                                  ….

Esta situação arrastou-se durante muito tempo mas somente quando papá não se encontrava no escritório.
O problema era que eu perdia o raciocínio e não conseguia fazer as contas de dividir nem de multiplicar. E quando papá chegava ouvia um valente sermão.

Entretanto chegava a minha tia Dolores e pregava-me uma homilia obrigando-me a fazer os trabalhos de casa debaixo de uma grande pressão.      

Tentei várias vezes contar à minha tia que não conseguia concentrar-me porque ouvia uns barulhos esquisitos. E sempre que tentava desenvolver a narrativa dos ruídos acabava por levar um puxão de orelhas. 

Dizia ela que eu inventava histórias para não cumprir com os meus compromissos escolares. E como se não bastasse contava ao meu pai que eu tinha uma grande imaginação e se continuasse desse jeito que a melhor solução seria arranjarem-me uma educadora para auxiliar-me nas tarefas escolares.

Papá como era muito somítico nunca concordava com a Tia Dolores até que um dia a titi o convenceu.


                                                                   ….

Nunca me esqueci daquele dia quando a educadora apresentou-se no escritório. Não era mais bonita que a mamã mas lembro-me que o papá ficou muito embaraçado e nervoso. Quando a Titi chegou olhou-a de soslaio, não sorriu e estiveram todos muito tempo a conversarem no escritório de porta fechada.


Entretanto fiquei sentado na minha antiga secretária sossegadamente a cumprir com o meu  dever, fazendo os trabalhos de casa,  que pareceu-me uma perpetuidade, quando finalmente eles saíram papá disse-me:



- Paulinho a partir deste dia a menina Josefina vai-te auxiliar nos teus trabalhos escolares.

Todos sorriram e eu também porque finalmente tinha-me libertado do sisudo, do ranger das mobílias e daqueles incomodativos risinhos dele e da menina Patrícia.

     
                                                                        ….

 Agora papá não me levava para o escritório. Eu Ficava a estudar em casa com a menina Josefina, tinha a companhia da baba Teresa e a Titi levava-me á escola como sempre fizera.

Durante os primeiros meses do ano lectivo tudo correu maravilhosamente e nunca mais vi o sisudo que o detestava mais que anteriormente, pois devido a ele só estava com o meu papá à noitinha.

Faltavam ainda dois meses para o ano lectivo terminar quando a Titi foi substituída pelo meu pai.

Foi uma grande tristeza para mim porque ela apesar de ser muito resmungona trazia-me chocolates e não comentava isso com o meu pai porque ele opinava que faziam mal mas Titi não partilhava da mesma opinião.

Um dia Titi apareceu em nossa casa e chorou muito e papá resmungou com ela e eu não percebi o porquê, pois os adultos são complicados e fiquei aborrecido com ele.

Os meus trabalhos escolares estavam a complicar a minha vida,  tinha ficado livre do sisudo mas não queria ficar  sem a minha tia.

Papá levava-me todos os dias à escola e a menina Josefina encarregava-se de ir lá buscar-me.

Titi de quando em vez passava por nossa casa e ficava muito contente porque eu tinha melhorado muito na matemática e no Português.


                                                                          ….

Até que um dia estava a menina Josefina a explicar-me o sinónimo da palavra “ paciente” quando papá chegou e murmurou-lhe qualquer coisa a ouvido e entraram na sala adjacente e disseram-me para eu continuar a estudar.

E assim se repetiu aquela situação até ao final do ano lectivo.

E  sempre que o  papá se aproximava  da menina Josefina segredava-lhe ao ouvido e fugiam ambos para a outra saleta.

E ficava eu sozinho  na secretária  , perplexo, meio tonto, sem perceber coisa alguma.   As horas passavam e  a minha angústia aumentava. O mesmo problema voltava. O meu pai era igual ao sisudo.

Os meus ouvidos escutavam uns ruídos e risos esquisitos que não me deixavam concentrar nas minhas tarefas escolares, deixando-me consternado e não somente detestava o sisudo como papá também.  



                                                                               ….

Desde então muita coisa na minha vida aconteceu. Cresci, amadureci, namorei, licenciei-me e exerço advocacia. Casei, fui pai e assim a vida foi decorrendo.  

Passaram-se mais de vinte anos desde esse tempo de menino e ainda hoje recordo com graça e humor toda aquela situação, como a vivi e senti naquela altura.

Atualmente Josefina faz parte da nossa família e ficou a substituir a minha querida mãe.
O Sr. Fausto é um senhor idoso e continua solteiro e a “ menina “ Patrícia é casada, teve um filho e tem um neto da idade da minha filha Maria.

A minha imprescindível tia Dolores morreu no ano passado e a bába Teresa faleceu, era eu ainda adolescente.

O meu pai continua casado com a Josefina, ambos com sessenta anos e nunca tive coragem para lhe contar acerca do romance engraçado que existiu entre o Sr Fausto e a menina Patrícia, embora naquela altura não entendesse bem a situação mas com o passar  dos anos apercebi-me naturalmente do que tinha acontecido, que mereceu ser contado aqui de uma forma divertida.