quarta-feira, 28 de março de 2012

Flor

A cidade estava quase deserta e a  noite gélida e triste.

Na rua poucos transeuntes se viam, alguns indigentes e outros para quem a vida também não sorria.

Caminhava ela  pela rua tão inerte e sozinha .
Abandonada por todos e por ninguém.
Não chorava nem se lamentava. Afinal a vida era apenas dela. Somente dela.
As lágrimas queriam brotar dos seus olhos mas não jorravam.
Isso não lhe era permitido. A vida é para ser vivida e não compreendida.
Flor, assim se chamava. Seu pai tinha lhe dado este nome porque  ela era tão ou mais bela que uma flor.

Menina de uma rara beleza e depois Senhora.
A inveja de todas as mulheres e o sonho de qualquer homem. E foi esta mesma beleza que a traiu. E neste silêncio meditava Flor. E nesta profunda e triste solidão rezava .

Recordava a sua terra. Uma aldeia pequena… onde a mesquinhez e a fealdade de espírito  prevalecia, não se podia ser um cisne ou um pato feio mas sim  um pato igual a tantos outros. Igual seria a palavra de ordem , a preferência e o ideal daquele lugar e daquelas pessoas.

Mas Flor não era o ideal daquela gente. Incomodava, importunava, afligia as esposas e os maridos mais obedientes.

Mesmo assim depois de todas as adversidades ainda sentia saudades dos seus conterrâneos, do mar, daquela calmaria, da terra quente e do sol a escaldar, do correr e saltar naquelas ruas estreitas. O cheiro a doces confecionados pela tia e pela mãe; do barulho dos primos e dos carinhos do pai. Terra linda e brava, a sua terra.

E as lágrimas corriam-lhe agora pelo rosto cansado e envelhecido pelo tempo, porque a saudade apertava e a vida furibunda  a engolia.
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E assim Flor chorava,gritava baixinho, para não ser ouvida, para não incomodar o ideal, o normal, a rotina daqueles que não querem ser incomodados, nem querem ver nem saber de outros mundos em que o sol chega apenas por uma pequena brecha.
E assim percorria a cidade tão fria e gelada, onde o vento acariciava as suas pernas tão magras e secas.

Aqui à  noite na cidade  é nefasto e pecado sentir ou amar. Aqui, na cidade, nestas horas escuras e sombrias apenas se pode desejar e satisfazer  apetites ou apenas determinados anseios, aqueles que no quotidiano e à luz do dia são proibidos e temidos.

Flor já não era aquela flor de outrora que saciava essas almas em busca de um pouco de amor, outras de um simples desejo ou  de adrenalina.  E assim a sua alma e o seu corpo foi sugado e engolido por outras almas, almas estas, também perdidas.







quarta-feira, 21 de março de 2012

Na minha aldeia

Ah ! Que bom é ouvir o chilrear dos pássaros
Sentir a frescura das árvores
e o sol a cintilar

Um cafézinho no tasco
O sussurro dos velhinhos
O cheirinho a terra
E o sino da igreja a tocar

As velhinhas a cochichar
O frenesim da missa das seis
As flores viçosas dos campos
e o corrupio das crianças

Quão maravilhoso é sentir
a natureza a manifestar-se
e a primavera a chegar

O coveiro acenar
O padre a chegar
O sol a cintilar
Na minha aldeia










































quarta-feira, 14 de março de 2012

Comentário do filme Marilyn Monroe

Marliyn Monroe um bom filme que bem poderia ser realizado por Woody Allen. Podemos ver nesta película a fragilidade e a baixíssima auto-estima de um ser humano. Completamente carente e ávido de afetos. O facto de não ter tido uma família e ter sido abandonada pela mesma em tenra idade vai ser determinante em relação ao seu futuro. M.M busca constantemente e de uma forma desesperada por um porto de abrigo. Sempre dependente da opinião dos outros que só enxergam “ um corpo” levam-na ao consumo de drogas e a estados depressivos, prejudicando-a profissionalmente ao ponto de se esquecer dos textos dos filmes que interpreta. Segundo os realizadores que trabalharam com ela o seu maior obstáculo é ela mesma. Falta de confiança na sua própria pessoa, busca incansavelmente no exterior aquilo que só poderia encontrar no seu interior. Tinha tudo para vencer no mundo da representação e isso conseguia-se verificar quando ultrapassava os seus próprios fantasmas e passava de imediato a encarnar soberbamente as personagens. Alvo permanente de inveja por parte das mulheres, cria ao seu redor ainda mais atritos e problemas. A sua beleza estonteante e arrasadora para os homens e insuportável para as mulheres ofuscaram por completo a atriz que tinha dentro de si contribuindo também para a sua destruição.A sua incrível ingenuidade e transparência, torna-a num livro aberto ao mundo o que foi decisivo para a sua entrada no inferno. M.M. não sabia que o “inferno são os outros” – Jean-.Paul.Sartre ou nós mesmos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Confissão

Confissão 

Perdoa-me querida orquídea
Agora que olho para ti no jardim da minha casa
tão só e tão linda
e tu olhas para mim ternamente mas sempre preocupada

Agora que não podes rir nem falar 
sentes uma grande dor e eu também
esta dor que eu sinto
esta dor que tu sentes 
dentro do nosso peito 

porque outrora rias e outras vezes choravas
e que bem eu te conhecia

mas o tal dia, o fatal momento 
que ninguém esperaria 
subitamente te chamaria

e a corrente daquele momento, daquele instante
fez-te um chamamento
e eu não tive tempo para parar o próprio tempo 


Quero pedir-te perdão das profundezas do meu coração
porque outrora fui tão cruel 
a minha ignorância foi mais forte que a sabedoria
e esta última é infinita mas não é para todos
e todo o tempo não chega para apreendê-la

Por isto tudo e por muito mais
e porque o tempo é um bom conselheiro
mas corre sem parar
é um bom mestre
mas implacável

e se num passado
não muito longínquo fomos filhos
no presente somos pais


Amada orquídea perdoa-me
por tudo que não fiz e poderia ter feito
eu sei que me entendes
e eu nem sempre te entendi
e o meu coração sangra
porque ele queria um diálogo

Agora vou regar-te com uma lágrima minha
Porque o sol está abrasador
E desejo-te um bom dia
e um até amanhã á mesma hora e ainda de dia