Lembras-te?
Aquele sitio que tu tão bem
conheces amigo…Lembras-te ? Aquele lugar em que estiveste comigo a falar longas
horas? onde ninguém se refugia, em que as almas terrenas
fogem dele, acham-no, a ele, o cemitério um sitio fastidioso, triste, assustador, frio,
arrepiante, desafiador, arrogante, ditador…Lembras-te? Durante a nossa conversa
ela, a tal, estava sempre presente.
Estávamos na casa dela e ela está
em todas as nossas casas mas ali é a
sede dela. Tu sentiste-te mal mas eu bem…Sabes o que eu senti? Uma paz, uma
tranquilidade, uma leveza …e o sol estava alto e eu corri tão feliz para junto
daqueles que ainda amo tanto… E tu achaste tudo tão estranho e criticaste…mas
depois compreendestes que afinal é difícil esquecer de um dia para o outro um
amor assim…e acompanhaste-me até ao pouso deles…o definitivo…e choraste comigo.
O sol continuava alto e um leve e
meigo ventinho se pôs e passou próximo de nós e sussurrou-nos:
- Até a um dia…
Ficamos arrepiados…nós sabemos
que foi ela…quisemos fugir mas para quê? Ela está sempre presente em nós. Tu
sabes amigo eu já não tenho medo dela, só ás vezes confesso.
Tenho mais medo de estar
deste lado, a que todos chamam Vida, que
por vezes é muito mais imprevisível e assustadora.
E a luz do dia ainda estava forte
e continuou e eu não queria sair dali, confesso que também achei estranho, algo me prende àquele sitio…e tu disseste-me para ter cuidado pois ela chama por mim.. Ficaste assustado e quiseste fugir
…e pensaste que eu estava louca mas digo-te amigo que não troco aqueles
momentos fugidios para estar com os outros…os outros…o barulho…a complexidade
da sociedade, o poder, o dinheiro, o frenesim da vida. E tu perguntaste com os
olhos esbugalhados: - Estás louca? trocas a vida por isto?
E eu ri-me e disse-te:
- que vida? qual vida amigo? Tu vives?
O que é viver?
Parir um filho ? Nascer ? Amar? Coabitar? Tudo
isto se resume em viver e já pensaste que em todos estes momentos está presente
o sofrimento e a morte, não seria melhor
resumir tudo a um momento e saltar a vida? Desde que nasces caminhas para ela,
a tal, a que todos têm medo e durante o percurso que fazes desde o teu
nascimento até ela padeces tormentos. E para quê tanta aflição? Para terminares
em braços com ela, rodeado nela, inevitavelmente.
E começaste a correr. E eu ri-me
e depois solucei…perdi outro amigo…mais um que me acha louca… e pensei que
perder, fugir, sentir, chorar, rir, ganhar…é a vida …e a outra, ela, a tal
acompanhou-me até casa como habitualmente…
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