A ultima viagem
O pobre passarito abandonado não
sabia como recomeçar a viver.
Aquela triste e longa viagem levara-lhe tudo. Perdera os amigos, os companheiros e a doçura dos seus pais.
Estes não aguentaram as vicissitudes daquele tortuoso e sinuoso caminho. Tempestades, frio, chuva, calor, imundície do cheiro a morte,o odor a sangue, a terra seca, dura, fria, pastosa, cruel, inconstante, movediça, lamacenta, alagadiça e cinzenta…e não resistiram e foram sugados pelo solo, comidos e corroídos, carcomidos e consumidos. MALDITA VIAGEM, pensava o passarito.
E como se não bastasse o rasto
dos amigos esfumara-se no vazio daquele húmus apodrecido e nojento.
Tinha fome, sede, ávido e sedento
de um carinho, de uma palavra amiga. Queria ter uma visão assombrosa, nem que
fosse por um minuto para ouvir um gemido, um choro, um sussurro, um murmúrio de
alguém vivo da sua espécie ou de outra qualquer.
Precisava, queria, necessitava de falar, de dizer, de ter, de querer, de
acreditar que não estava só…
Mas o passarito sozinho,
solitário, triste, vazio, enfraquecido, perdido naquele inferno não aguentou e…meio
perecido, meio vivo e esfolado pelas quentes e fortes temperaturas daquela amaldiçoada
terra, finalmente vê o vulto dos seus
pais que o agarra, beija-o, abraça-o, acariciando-o, não aquelas penas
queimadas mas a sua alma.
Porque o passarito também tinha alma, era gente,
amava, sentia e penava.
Meu pobre e triste passarito.


