O trilho da vida
E lá estava eu, mesmo no âmago do temporal, endoidecendo com o barulho do mar. E a chuva não parava e na proa do barco entravam grandes ondas, fortes, possantes e cada vez mais enérgicas…E eu ali perdida.
E Simplesmente Só.
O medo apoderava-se de mim.
Não via ninguém. Tinham desaparecido todos. Estavam todos mortos, pensava eu, se é que conseguia pensar.
Estou só? Onde estão todos? Porque me deixaram?
O que está acontecendo?
Tenho medo, sinto muito medo. Tenho muito frio.
E no meio daquela imensidão de água que entrava e saía do meu pobre corpo franzino eu gritava: -não quero estar só…não quero morrer assim.
A angustia e o pavor de não escutar uma palavra, apenas uma palavra de uma pessoa apavorava-me…e as ondas respondiam-me de uma forma cada vez mais acutilante e gélida, rasgando-me as roupas, tornando-as em farrapos.
O corpo rebolava na proa do barco como se fosse uma delicada bola. Sangrava, gritava, gesticulava.
Os pensamentos não paravam porque estes nunca param. Então quis perecer para não pensar, para deixar de existir. Para não sentir nada.
Mas o nada prolongava-se, enchia-se de terror e já não era nada. Era tudo. Era qualquer coisa. Existia, estava ali naquele momento. O nada não me deixava. Não era um vazio, porque este nada era algo e este vazio estava cheio de nada.
As ondas brincavam com o meu ser, com o meu pobre corpo. Atiravam-me de um lado para o outro sem piedade, sem misericórdia. E eu finalmente percebia que todo aquele vazio e todo aquele nada estavam cheios de tudo.
E aquele tudo sempre estivera á minha espera. E naquele predestinado dia deu-me tudo numa bandeja.
Chorava e vozeava pelos meus. E eles também não estavam
Doía-me o corpo, estava exaurida, extenuada e então chamei por Deus:.
Deus tu não existes, deixaste-me, que mal fiz eu ?
Dói existir, dói sofrer, não quero padecer.
Finalmente o mar levava-me.- Que me carregue até ao infinito, que me leve para sempre.
O corpo não o sentia mas os pensamentos ainda lá estavam.
Ainda cá estou ? Onde estou? Meu Deus, estás aí? Existes? És tu?
Fala-me por favor. Eu ainda estou aqui, ainda penso, ainda existo.
Diz-me onde estou? Porque padeço? É mistério? Porque não falas comigo? Para onde vou?
Para onde estou indo ?
Estou passando por um grande turbilhão, por um enorme reboliço, por um trilho com gigantescos pedregulhos. É verdade, confesso, sou levada por uma onda tenebrosa.
- Não consigo ver, nem enxergar coisa alguma. -Vou rezar. Deus...-Não sei rezar, não consigo, esqueci-me, estou esgotada.
Sinto agora um certa quietude. Porquê esta repentina mudança? Mudei de vereda? caminho para o céu ? Não posso estar no céu. Afinal onde está Ele? Sempre acreditei nele. Aos outros clamava: - Qual Deus? Que Deus?
Mas aquando aquela agitação e depois de muito desbravar senti que precisava Dele. E Ele estava lá. Porque eu vivenciei-o.
Ele é Tudo, é Nada, é o Vazio, é Pleno, é Tormenta, é Angustia,é Medo, é tudo isto e muito mais; até chegarmos a Ele.
Foi o trilho que eu percorri e onde também sofri.
Outra vez esta calmaria?
As ondas outra vez? O frio da água ? Uma luz ténue?Um baloiçar deleitoso, umas correntes gélidas, uns troncos, livros, roupas, tralhas, o azul do céu, o sol a surgir, o vento a sussurrar, um cansaço delicioso, muito sono, um sonho bom, muita luz, vozes longínquas e finalmente devo ter adormecido.
Ouço gritos, clamores, algazarra.-Estou onde? Vozes? Palavras? Pessoas?
Entrevejo uns rostos. Que estranho, conheço-os. Não estou só. Estou a vê-los finalmente os seus rostos, os amigos, o marido, a família, os vizinhos.
Que alegria! Que contentamento! Que jubilo meu Deus. Obrigado Deus.
Agora me lembro, falta Ele. Não vejo o seu rosto e quero agradecer-lhe. Ainda estou aqui com todos aqueles que amo e que percorrem este trilho.
Olho para aqueles rostos que brilham e encantam. Gritam eufóricos, exaltados.
Agora compreendo. Ele está aqui, pertinho de todos nós.
Sinto-o. Ele está nos gestos dos amigos, no semblante da família, no sorriso do companheiro, na gritaria dos vizinhos, no estado expectante dos doentes, na satisfação dos médicos e no rir dos enfermeiros.
Está na calmaria do mar que avisto do meu quarto, no sussurrar do vento que poisa levemente no meu rosto.
E na chuva que bate serenamente na janela da enfermaria, como nas feridas saradas do meu corpo.
E no meu renascer, na minha vontade de saltar da cama e correr indefinidamente como se tivesse asas e pudesse voar para sempre..