terça-feira, 29 de maio de 2012

A ultima viagem


A ultima viagem



O pobre passarito abandonado não sabia como recomeçar a viver. 

Aquela triste e longa viagem levara-lhe tudo. Perdera os amigos, os companheiros e a doçura dos seus pais. 

Estes  não aguentaram as vicissitudes daquele tortuoso e sinuoso  caminho. Tempestades,  frio,  chuva,  calor,  imundície do cheiro a morte,o odor  a sangue, a  terra seca, dura, fria, pastosa, cruel, inconstante, movediça, lamacenta, alagadiça e cinzenta…e não resistiram e foram sugados pelo solo, comidos e corroídos, carcomidos  e consumidos. MALDITA VIAGEM, pensava o passarito.
E como se não bastasse o rasto dos amigos esfumara-se no vazio daquele húmus apodrecido e nojento.  

Tinha fome, sede, ávido e sedento de um carinho, de uma palavra amiga. Queria ter uma visão assombrosa, nem que fosse por um minuto para ouvir um gemido, um choro, um sussurro, um murmúrio de alguém vivo da sua espécie ou de outra  qualquer. 

Precisava, queria, necessitava de falar, de dizer, de ter, de querer, de acreditar que não estava só…

Mas o passarito sozinho, solitário, triste, vazio, enfraquecido, perdido naquele inferno não aguentou e…meio perecido, meio vivo e esfolado pelas quentes e fortes temperaturas daquela amaldiçoada terra,  finalmente vê o vulto dos seus pais que o agarra, beija-o, abraça-o, acariciando-o, não aquelas penas queimadas mas a sua alma. 

Porque o passarito também tinha alma, era gente, amava, sentia e penava.       

Meu pobre e triste passarito.

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