segunda-feira, 22 de abril de 2013

Querida Tia





Querida Tia


É tão bom saber  que  uma pessoa consegue ressuscitar tantas vezes quantas quisermos. Precisamos é de ter  muita força, determinação  e perseverança. È  como  o  nascer  do sol que surge   todas as  manhãs  e é lhe indiferente se chove, se faz frio ou calor, se os homens estão tristes ou alegres, em paz ou em guerra . Esses  caprichos não lhe interessam. Ele simplesmente aparece e é exacto,  até ao contrário acontecer (defendido por David Hume) , mas isto é outra história. Portanto temos que lhe seguir as pisadas nesta exclusiva  peculiaridade, desabrochar e viver todos os dias.  


Claro que tu sabes Tia ou não fosses tu a ensinar-me muita coisa. Uma delas é tornar as adversidades em pontos fortes porque a coragem não pertence exclusivamente aos guerreiros ou aos soldados que em nome da pátria ou para defender as sua convicções ou ideais não se “importam” de perder a vida.  Estou a ser injusta, quem quer perder a vida? Penso que todo o individuo ama a sua própria vida mas a conjuntura ou o paradigma em que ele ou o seu país se  encontra assim o sujeita. E assim vidas se dissipam.

Esta palavra coragem também pode associar-se a todos nós,  pessoas simples, igualmente  combatentes   que travamos e lutamos diariamente com muitas  contrariedades. È evidente que uma guerra feita com armas que sustentam  interesses políticos, religiosos e sociais é diferente. É devastadora, sanguínea, cruel e desumana mas a nossa luta diária de uma outra forma  também não o é ?  Aquela em que nos  enredamos todos os dias, horas, minutos e segundos,   também é bárbara. Uma batalha dia após dia, noite após noite e   se não tivermos cuidado devora-nos e corrompe-nos silenciosamente. Tu sabes Tia do que eu estou a falar ou não fosses tu uma guerreira, uma lutadora feroz, enfim uma sobrevivente.

E como só tu sabes que para vencer os obstáculos temos que usar a persistência, a sabedoria, o amor e também dizer não a muitas coisas, pois  ser mãe, esposa, filha, prima e sei lá mais o quê é preciso  muita perícia, destreza e inteligência.
Ensinam-nos na escola, na faculdade, nos colégios muitas teorias mas nenhum deles  tem um livro com instruções para gerir estas graduações próprias e intrínsecas á vida. Se assim fosse não haveria tantos conflitos familiares e profissionais.   Ou haveria?    .


Minha doce tia, hoje quero-te dizer que finalmente cheguei ao meu destino de férias e tu sabes qual é. Aqui está um dia maravilhoso, cheio de sol e uma temperatura amena. Como é possível o ser humano esquecer-se do quanto é suave e delicioso este  sol e mar que  acalenta-nos, adormece-nos e  suaviza cada partícula do nosso ser? E  renascemos, nascemos, rejuvenescemos e    florimos   novamente e finalmente deixamos de pensar  na labuta do dia a dia.


O nosso coração dá de si outra vez, palpitando ou batendo e um desejo enorme  abraça-nos  e envolve-nos num enternecimento tal que só apetece amar tudo e todos e quem sabe apaixonarmo-nos de novo.


Pelo um príncipe ? Talvez. Quem sabe tia? Quem sabe? O meu  em breve vem ter comigo e traz os nossos  passaritos.

Tu sabes que eu estou a brincar e bem sei  que estas  coisas de coração são muito delicadas e labirínticas. Se nos distrairmos um pouco e não estivermos atentos ao que se passa ao nosso redor, dentro da nossa família ou  do nosso lar   as consequências podem ser desastrosas. O ser  humano está sempre   insatisfeito pois esta é uma  característica que lhe é inerente.  

Por isso eu digo várias vezes que temos que acender sempre a tal  luzinha. Aquela que ilumina e mantém  o nosso ser e a nossa morada  em harmonia. Ah! Tia , lar doce lar! Lembras-te? O Tio  diz isto muitas vezes.



Já dizia a Avó Maria que quem soube durante toda a sua vida preservar o que tem e não se referia aos bens materiais, embora  também precisemos deles, mas  mencionava como prioritário as amizades e os afetos é sem dúvida  aquele que  possui  o melhor e o maior  tesouro do mundo.


Estás a pensar que tenho que ter juízo? Eu sei tia mas na maioria das vezes no aconchego do nosso lar a nossa lamparina quase que se apaga e é necessário revitalizá-la e tu docinho és perita nisso. Se não regarmos o nosso jardim as flores murcham  e em qualquer esquina ou recanto pode aparecer  alguém que nos faça mudar de rumo ou de percurso.

Mas eu só penso nos meus passaritos. Eles  estão bem e por eles eu vou até ao fim do mundo, por isso não te preocupes porque eu não estou disponível para um novo capitulo nessa área e  quero-te dizer o quanto  aqui, neste recanto paradisíaco estou a sentir-me jovial e fresca. Eu não quero trocar de ninho porque o meu está confortável  e cheio de bem-querer.

E entretanto digo-te que   nestes meus voos passam-se coisas muito engraçadas que quero partilhar contigo.

Estou neste momento sentada, num  bar muito soberbo   situado à beira mar e estou-me a sentir uma autêntica adolescente. Ao meu lado estão três cangurus todos sorridentes e amáveis querendo meter conversa ardil comigo.  Parecem uns garotos querendo mostrar as suas bravuras. È engraçado tia mas o homem não cresce, neste capitulo não amadurece, pode sim envelhecer e tornam-se tão impertinentes! E ás vezes até engraçados e imaturos.

Lembras-te do tio naquela tarde de Verão que cismou que os calções verdes lhe serviam e acabou por os vestir e andou com eles rasgados no rabito durante toda a tarde? E que os vizinhos fartaram-se de rir mas ele mesmo assim não os tirou?
  
Quando me recordo dessa tarde desato-me sempre  a rir.  E a tia sempre atrás dele com vergonha que lhe vissem o rabo? E o tio Lucas para o apoiar rasgou também os calções dele e foram até ao café do Sr. Alberto? Lembras-te ? E cheios de razão comentavam em voz alta que a um homem tudo fica bem.  E a Dª Rosária farta de os escutar  disse-lhes  que não gostava de ver rabos  flácidos e eles responderam que flácida era avó dela?  Foi uma tarde tão divertida tia. 
  
Mas mudando de assunto tia, não nego que estou radiante e com o meu ego aos pulos, imagina. Já não tenho idade para estas coisas mas que isto me diverte e tem a sua piada, isso tem.  Nestes momentos esquecemo-nos dos quilos que temos a mais, da celulite, das angustias e de tantas coisas que  nós  mulheres inventamos e que acabamos por massacrarmo-nos sem necessidade.  

Estou com aquela camisola azul, cor do  céu que me deste e aproveito para agradecer-te porque fica-me muito bem. O azul dela combina com os meus olhos, deve ser por isso e também porque sinto-me muito feliz e irradio cá para fora todo este sentimento de plenitude, de tranquilidade e de paz juntamente com algo de enigmático que faz com que os outros se sintam bem com a minha presença.

Sei querida no que estás a pensar mas digo-te que eu não trocava esta fase da minha vida por outra qualquer que tenha vivido no passado. Estou mais gordinha? Mais velha ? Claro que estou mas a sabedoria da idade compensa isso tudo. E também quero-te dizer que quando acabar as férias vou  deixar de ir ao ginásio em prol de umas boas caminhadas. Quero ver o dia, o sol, o cair da noite, respirar a vida e aproveitar cada momento fresco e novo que ela me traz.

E agora querida tia vou terminar com o mesmo estado de espírito com que  comecei. O sol está a pôr-se.  O clima está esplêndido, agradável e eu sinto-me perdidamente encontrada e restabelecida. Vou  para o  Hotel que fica aproximadamente a cinco minutos daqui e quando lá chegar  tomo um bom banho e  vou vestir aquele vestido lindíssimo preto que tu  ajudaste-me  a comprar   para celebrar  esta noite tão especial.




Tenho que apressar-me  pois o meu príncipe está a chegar com os meus  passaritos numa linda e bela  carruagem puxada por dois magníficos cavalos. E  assim começa  mais uma  etapa da minha vida em que eu deposito nela toda a minha fé. Espero que seja um período cheio de prosperidade e que dure eternamente e  assim faço jus ao que avó Maria dizia, preservo o que tenho e vou acendendo uma  velinha, hoje,  amanhã e sempre ...e assim é a vida a minha vida, apesar das  tempestades continua  toda iluminada. 



Muitos beijinhos desta tua sobrinha que muito te admira,











segunda-feira, 15 de abril de 2013

Á minha querida sobrinha



Á minha querida sobrinha
Dizia a tia da Ana  com a sua habitual perícia:
Um dia quando fores mais velha vais  confrontares-te com o reboliço e com a agitação  desta  vida e há  sempre   um momento em que necessitamos desesperadamente   de fazer um interregno  ou um balanço  para pensar sobre o nosso  legado.. Uma das primeiras  coisas que  constatamos é que   o tempo passou tão rapidamente, que não viveste tudo, que muito ainda está por   fazer e que o prazo começa a escassear   ou então também se passa o contrário que finalmente chegou a hora de  assentar , que já contribuíste com a tua parte  como cidadã do mundo e resolves dedicar-te á família, isto é,  se não tiveste oportunidade   de o fazer ou então  se o fizeste talvez possas  dedicares-te  a ti mesma ou aos amigos mais próximos.


E nesse dia porque há sempre um dia em que fazemos um julgamento a nós mesmos (a apreciação dos outros quando nocivos ou não instrutivos  não  interessam, são desprovidos de valor), refletimos  ponderáramos  sisudamente  sobre esta jornada que percorremos diariamente e as  recordações assolam-te. Umas são avassaladoras, outras dolorosas mas também existem aquelas que ainda hoje te fazem vibrar.   


E recordas-te porque recordar também é viver desde que não fiques por lá, desde que não permaneças lá, mas enquanto revives aqueles momentos dás por ti a fazer comparações inevitáveis. O que vês? Principalmente se   estás a viver o presente   ou se este não passa de quimeras e  que simplesmente não estás a usufruir dele devidamente.  

Lembras-te de ti mais nova, não me refiro apenas ao aspecto físico mas aos teus pensamentos, ao teu modo de encarar a vida e às suas vicissitudes. E reparas que no passado os teus pensamentos a  tua  forma de vivenciar as coisas eram muito  diferentes e algumas continuaram iguais.
Algumas crenças e ideais transportámo-los  para a nossa idade adulta outras foram morrendo pelo caminho.

As agruras desta jornada por vezes levam-nos a cortar com muitas ambições  ou aspirações mas outras quezílias  fazem  fortalecer ainda mais os nossos sonhos, a não desistir deles e a continuar.

Mas minha sobrinha  ás vezes o fardo fica bem pesado que o que nos fortifica é   sempre algo a contrariá-lo , o nascimento de um filho, de um neto, de um sobrinho,   um amor proibido  que se viveu e que nos elevou a nossa auto-estima, um primeiro ou um ultimo amor que nos fez sentir  num paraíso,umas boas e quantas  amizades,um sarau animador em casa da família e amigos, uma viagem de sonho com o nosso companheiro, um fim de semana longe de tudo e de todos, um simples pôr ou nascer  do sol, aquela chuva a cair e os lençóis quentinhos a enrolar-nos, uma louquice qualquer para sair da rotina, umas tantas malandrices, sei lá …muita coisa boa…
  
E quando voltámos ao presente o que vimos? Vimo-nos a nós nesta fase adulta. E o que somos nós agora?  Somos adolescentes inacabados  com mais uns quilos de responsabilidade ou com um caderno abarrotar  de  compromissoso e encargos.  Somos o ontem e o hoje . Somos o medo, a responsabilidade, a prudência, a loucura, as convicções, a criança,o jovem, o  adulto  a alegria e a tristeza, as inseguranças e tudo o mais que inventamos. Sim porque o Homem inventa e a obra cresce. Somos peritos  a fabricar dificuldades mas também bons a  construir sonhos.

Mas o que mais me assusta são aqueles que nesta caminhada estão  mortos ou  moribundos. Estes pelas circunstâncias ou não da vida tornaram-se azedos, tristes, sombrios…e foram comidos pela vida.


Tem cuidado sobrinha tenta sempre fugir deste atalho…porque ele vai aparecer-te muitas vezes e tentar engolir-te.  É neste trilho que aparece os julgamentos alheios maléficos. Este tipo de juízo não nos interessa, até  porque cada um é juízo de si mesmo. A nossa vida é apenas nossa. O nosso Juízo é a nossa inteligência que por vezes se afasta e é aí que surgem os nossos tropeções. Mas a vida ensina-te que tens e deves levantar-te.  


Enfim, chegamos á fase madura com uma soma de experiências acumuladas, fracassos que não passam de lições mal estudadas e que acabamos por os aperfeiçoar e fazer tudo de novo , recomeçando; somos um acumular de sucessos, erros, ignorância …mas temos que passar á fase seguinte.

  Tudo isto minha querida sobrinha para dizer-te ou responder-te á tua pergunta,  que como tu eu também vivi o meu primeiro amor, com todas as dúvidas que ele traz, com toda a melodia harmoniosa que só ele por ser o primeiro sabe tocar, e que nos faz ouvir todos os sinos a badalar, ver  tudo mais  cintilante, a terra, o mar, o rio, as flores, as pessoas. Senti r e ver amor e sorrisos em todos os rostos que encontrava. Enfim um estado de graça e de plenitude.

E lembro-me de querer ficar lá para sempre naquele instante e naquele momento. Mas temos que avançar querida  porque a vida não estagna, não cessa eternamente num determinado local, ela continua sempre na sua mutabilidade. Ela é inconstante e só faz algumas paragens e depende de ti ou não trazeres o melhor ou o pior delas.

Portanto pequenina  não faças muitas perguntas porque o teu comboio parou nessa estação e eu aconselho-te a saborear e a desfrutar tudo de bom que essa paragem te traz mas toma cuidado porque a ponderação e a medida certa das coisas fazem todo o sentido em determinados âmbitos como o amor, não te percas no primeiro mas também não te acanhes e lembra-te que outras paragens vão suceder  até ao fim da tua vida e temos que saber  dosear bem as coisas,  que um pouco de loucura não faz mal a ninguém e que ser criança é renascer em cada feito e  se não agires com sabedoria aprendes numa outra interrupção…porque afinal a vida é errar, aprender e assim sucessivamente.


Minha querida sobrinha eu também precisava de um conselho teu. O teu tio cada dia está mais rabugento e eu sem paciência para o aturar. Esta é a minha paragem e vou ter que a saborear da melhor forma. Vamos passear as duas e deleitar-nos  com   este belo dia? Pois tenho  que aproveitar  esta pausa enquanto  o comboio está parado porque vai haver um dia que ele chega ao fim da linha. Eu sei que me estás a entender e aqui termino onde comecei. Porque o fim da linha pode surgir a qualquer altura  e o tempo começa a minguar e na minha vida ainda há muito que fazer.
Um grande beijinho da Tia e até amanhã.

terça-feira, 2 de abril de 2013

As Andorinhas




As Andorinhas


As Andorinhas

O sol estava alto e o mar calmo. A praia estava com pouca gente e as garotas passeavam tranquilamente pela beira  mar molhando os pés e saltitando como tivessem poder para  desafiar a natureza. 

As  donzelas puras e ainda inocentes, acabadas de  desabrochar  das conchas dos seus progenitores já se aventuravam a desafiar o sexo oposto mostrando os seus harmoniosos corpos ainda por amadurecer.. Caminhavam duma forma sensual como se fossem umas  rainhas  atraindo assim olhares masculinos ávidos de desejo e provocando um mal estar nas outras garotas menos atrevidas.

O mar tocava levemente os pés de Elle  deixando-a deliciosamente tonta. Inexplicavelmente  sentia que  este dia ia ficar registado na sua memória como se fosse uma premonição. Um formigueiro seguido por breves momentos de  uma apatia abatia-se sobre si.

Inesperadamente pareceu-lhe escutar uns incompreensíveis   murmúrios acompanhados com uma suave aragem que vinha das entranhas do mar:  
- Vem até aqui...molha os pés...não avances...pára agora por favor.

Elle assustada e confusa porque a sua imaginação estava incontrolável e a passar a linha da sensatez e a perder o juízo resolve molhar os pés para tentar acordar daquela letargia.

A espuma esbranquiçada das ondas fazem-lhe  tal coceira que não consegue resistir num pranto de riso.  
As outras ao escutar aquelas risadas escangalhadas  aproximam-se dela  saltarinhando   ao seu redor numa grande azáfama.

Pareciam um bando de andorinhas. Livres, soltas, leves, alegres, encantadoras, desinibidas e tantas  coisas mais.
Os fatos de banho rodopiavam com elas  e ainda um pouco secos e brilhantes de cor de marfim requestavam toda atenção.


E  um pouco mais á frente um grupo de rapazes jovens sentados  na areia, olhavam  o mar como se estivessem á espera de alguém ou que algum mistério lhes  fosse revelado a qualquer momento ou que algum milagre acontecesse, estavam assim como que perdidos mas também tranquilos porque afinal ser jovem é ser mesmo assim, ser nada e ser tudo, ser eterno e infinito, poder ter tudo e nada, e nada é tudo.

E assim a vida corria e decorria, parava e tremia naquela belíssima tarde de Verão. O  sol bronzeava aqueles  jovens e atordoava-os com aquele apetecível calor acompanhado com uma deleitante brisa de vento.


E as suas fragrâncias acabam por atrair as nossas garotas, as andorinhas que revoltearam á volta deles enroscando-os e o milagre acontecia.

Elle não parava de falar e de gesticular usando toda a sua voluptuosidade com aquele que mais lhe agradava, o jovem moreno, de cabelo encaracolado, como quem quer  agarrar sofregamente aquela deliciosa fatia de bolo, a maior, a melhor no seu entendimento. 

E mais uma vez as outras seguiam-lhe os passos, as regras, as tradições porque assim também tinha acontecido com as avós, com as mães, as tias, as primas e tantos mais.

E juntam-se todos a tagarelar ou a namorar  como um bando de gaivotas, num dia cheio de sol, tão pleno de vida, onde tudo acontece, tudo pode e onde o mar fala e segreda ás meninas ou garotas que a qualquer momento o amor acontece.