sábado, 23 de outubro de 2010

A VIDA E A MORTE

Caminhava lentamente por aqueles corredores frios, grandes e com tectos altos. Pensativa olhava para aquelas janelas enormes. O sol entrava pelas frestas aquecendo um pouco aquelas paredes pálidas e tristes.
A vida lá fora fervilhava. Os pássaros chilreavam e saltavam de árvore em árvore. O vento fazia estragos espalhando as folhas caídas das árvores pelas passagens e entradas principais do Hospital.
As ambulâncias chegavam com doentes e partiam novamente. As enfermeiras e funcionários do hospital avistavam-se em grupos. Alguns médicos entravam e saíam do edifício. A agitação, o barulho eram uma constante naquele local.

Alguns visitantes caminhavam em silêncio enquanto outros gesticulavam e falavam aos pares.

Silenciosa observava dois mundos. Separados unicamente por uma parede. De um lado a morte que prevalecia austera, rígida, severa e imponente. Do outro lado o sol cheio de vida, majestoso, delicioso que entrava devagarinho pelas janelas aquecendo e confortando aqueles rostos cansados, tristes e sem cor enquanto Ela - a morte não chegava. Os corpos envelhecidos e sem força corroídos pela doença quase não sentiam aquele pequeno sopro de vida, um raio de sol.

Num hospital não se vê rostos belos e corpos firmes tão apreciados pelo homem moderno. E é neste lugar que um homem mais medita. É aqui que é confrontado com a sua pequenez, com a sua finitude e limitação. É neste recanto que sente o quanto é impotente e frágil. É aqui que vê a fugacidade, o ilusório e a efemeridade das coisas. Então ele chama por um Deus Salvador e Misericordioso mas o tempo não pára. E ele jaz numa cama qualquer que não é a dele e os seus olhos aos poucos deixam de ver e o seu corpo de sentir e os gritos que querem sair mas são sufocados pela falta de forças.

E enquanto caminho por este trilho vou vendo tanta coisa. Olhares vazios, Corpos inertes e corações que ainda não querem partir. Vejo rostos que sofrem transformações aquando da sua morte. Uns aliviados e outros ainda a lutar arduamente. Parece que alguém chama por eles. Mas se uns morrem tranquilamente outros pedem mais um tempo porque estão à espera do filho ou do neto ou do pai ou da mãe para um último beijo.

E assim são levados pela Morte irremediavelmente ligada à vida.

















sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CONTO- Fragmentos de Vidas

Portugal, Norte do País - 1973


Num pequeno lugarejo próxima da Cidade do Porto a vida decorria lentamente.

A Dª Joaquina andava na sua labuta habitual. Naquele dia vestia uma saia e blusa preta. Usava o cabelo curto de cor castanho-claro. Ainda era uma mulher bonita. Os seus olhos azuis e muito vivos destacavam-se ou distinguiam-se da sua indumentária. O seu rosto mostrava algum cansaço. Sinais de uma vida difícil

Com um andar decidido, ela e a sua filha quase adolescente entraram na única loja de roupas que existia naquela Aldeia.

Pediu 3 metros de tecido para fazer uma saia resmungando para a Dona da loja:

- Mostra-me por favor uns tecidos bonitos. É para a minha filha. Pago-te em duas vezes, não te fico a dever nada.

A proprietária da Loja foi buscar os tecidos sem dizer uma palavra. Era uma Senhora alta de cabelo louro . Trazia vestido uma saia e camisola de malha azul escuro.
Como adorno tinha pendurado ao pescoço um colar de pérolas. Calçava uns sapatos de salto médio de cor bege. Tinha um porte elegante e nunca sorria.

Demorou pouco tempo a trazer os tecidos e pousou-os sobre o balcão de madeira.
Dª Joaquina olhava para eles com ar desconfiado e murmurava em tom baixo para a filha:

- Que achas filha?
E a filha baloiçava a cabeça para baixo quando os tecidos lhe agradavam, caso contrário mostrava à mãe o seu desagrado com uma careta.

Na maioria das vezes a rapariga fazia uma cara feia e Dª Joaquina voltava a chamar a Dona da Loja:
- Dulce - a minha filha não gostou dos tecidos. Mostra-me por favor outros tecidos. Estes têm um estampado para pessoas da minha idade.

E repetia novamente:
- Não te fico a dever nada. Eu pago o tecido.

A Dª Joaquina enquanto falava olhava de esguelha para outra cliente que tinha em seu poder tecidos de qualidade superior aos que tinha visto.

Entretanto a Dª Dulce sem sorrir trazia mais tecidos. E repetia-se tudo de novo.
A filha da Dª Joaquina continuava a mostrar cara feia.

A mãe da rapariga não era parva. Havia clientes e clientes. A Loja fiava a todos mas existia hierarquias.

Chateada com a filha e com a Dª Dulce mas principalmente com a própria vida saía da loja sem qualquer tecido. Agarrou a filha pela mão e disse:
- Tu és esquisita. Só gostas do que é caro e bom.

A filha sorriu.A mãe abraçou-a.E prometeu-lhe:

- Não fiques triste. Para o próximo mês já tenho dinheiro e vamos à cidade. Não faltam tecidos bonitos e baratos.

As duas muito agarradas e cúmplices foram caminhando em direcção à Igreja da Aldeia.