terça-feira, 25 de maio de 2010

As noites de Verão

As noites de Verão eram mágicas. O cheirinho a mar e a rosmaninho deliciavam-me. O jantar no pátio à sombra das videiras, as discussões saudáveis com o meu pai e com o meu irmão mais novo não tinham fim. As tertúlias preenchidas com conversas sobre os vizinhos e a família acabavam sempre da mesma forma, não se chegava a conclusão alguma. As brincadeiras dos meus sobrinhos ainda de tenra idade e a correria da minha mãe e da minha cunhada dava uma certa graça ao jantar.O resmungar sempre presente da minha tia com o seu inesquecível bigode fazia despertar a menina traquina que existia dentro de mim.
A lida doméstica pertencia ás mulheres mais velhas, da qual eu estava excluída. Elas lavavam a loiça num grande alguidar junto ao poço. Dele jorrava toda a água do mundo. Aquela água era deliciosa. Nestas noites quentes o meu pai e o meu irmão banhavam-se no tanque grande. Eu corria para dentro de casa eufórica para buscar o fato de banho. Era indescritível o sentir daquela água gelada no corpo que fazia com que o calor desaparecesse por momentos. As crianças faziam uma grande algazarra. O avô mandava-os calar. O meu pai adorava os netos mas o cansaço apoderava-se dele. O dia estava a findar mas ficávamos ainda sentados a conversar no alpendre e a observar as pessoas na rua. O Alpendre situava-se num alto, virado a poente como a nossa casa, a mais velha das redondezas. Ao seu redor avistávamos o quintal todo. Tínhamos um grande muro que circundava o quintal. Ao longe via-se o mar. Mal a noite caía surgiam as primeiras pessoas a regressarem do centro da vila para casa. O café ou as pequenas associações eram os locais de eleição onde as pessoas deliciavam-se a bisbilhotar sobre tudo.E assim se passava mais um Sarau.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Uma prenda para mim

Corri até ao café da Vila. Estava feliz. Entrei no café. Observei-o. Sentia orgulho nele. Era bonito e ainda muito novo.
Há muito tempo que não o via. O meu coração batia forte.
Aos saltos como uma menina, corri até ele. Abracei-o. Dei-lhe um beijo. Queria dizer-lhe muitas coisas.
Amava-o muito. A ausência dele entristecia-me. Contive-me e sorri . Ele Olhou para mim e esboçou um sorriso e disse-me:

- Olá loirinha, então? Trouxe uma prenda para ti.

- Uma prenda?

Ele trouxera-me uma prenda. Eu raramente tinha prendas. Como eu gostava dele! Eu não queria que ele fosse embora.

De repente perguntou-me:
- A mãe está bem?

- Sim, fala muitas vezes em ti.

Não consegui dizer ao meu irmão o quanto a minha mãe sofria com o seu afastamento.

O tempo dissipava-se e ele estava com pressa. Com um gesto carinhoso deu-me um beijinho.

Entregou-me a prenda. Era um perfume. Fiquei nervosa e ele também.

A viagem para o Alentejo era longa. Deu-me outro beijinho. Eu queria chorar mas não conseguia.
Ele estava triste. Eu estava perturbada.
Saímos para a rua. Abraçou-me longamente.
Entrou para o carro.

Disse-lhe adeus até o veículo desaparecer.

Fiquei ali só, inerte. Agarrei sofregamente na prenda.
Olhei para a minha mão pequena agarrada ao pacote. Tinha um laço vermelho. Queria abri-la. Não conseguia. Sentia um nó na garganta.

Comecei a correr novamente. Fiz o percurso inverso ao anterior. Cheguei a casa. Tentei disfarçar toda a emoção de ter estado com o meu irmão mais velho. A minha mãe veio ao meu encontro e perguntou-me ansiosa:
-Então, como está o teu irmão? Perguntou por mim?

Não respondi e comecei a saltar de um lado para o outro sem parar. Apenas dizia:

- trouxe uma prenda para mim, trouxe uma prenda para mim.

E assim disfarçava toda a saudade que sentia do meu irmão.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O teu sorriso


Ela - A Noite

Ela, a Noite vem de negro, muito escura e traz um manto ainda mais negro. Eu fujo. Ela persegue-me e por fim alcança-me. Suga-me as forças e depois vai... Fico doente. Recupero e encho-me novamente de luz. Porque eu sou luz, sou uma pequena estrela e Ela, a Noite inveja-me. E assim sucessivamente acontece, ela vem buscar aquilo que não tem. Mas o que ninguém sabe é que outrora Ela fora encantadora, minha amiga e companheira. Choro com tristeza por mim e por ela. Talvez um dia quem sabe ficaremos...apenas amigas... Eu e Ela-a Noite

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Lembranças

Lembro-me deles sempre à noite.

Vejo-o a limpar o rosto e ouço a sua voz: - hoje trabalhei muito, prepara-me o banho mulher.
- Estou suado.

E a voz dela sempre submissa:- Está bem homem, já vou.

Ela fazia tudo que ele pedia mas tinha uma personalidade forte.

Na minha cabeça as vozes deles e os diálogos são tão reais como se fossem vivos. Conforta-me saber que estão dentro do meu coração. Não tenho medo dos mortos e destes principalmente porque me amaram muito.
Quantas vezes vejo os seus rostos, o meu pai com aquele sorriso que o caracterizava. Um sorriso espontâneo e malandro. O meu pai era uma criança. A minha mãe era o meu e o seu esteio .

domingo, 9 de maio de 2010

Nós e a Filosofia

Tenho ouvido muito jovens principalmente os que frequentam o 10º e 11º ano de escolaridade e que têm a disciplina de filosofia a queixarem-se desta, ou porque não tem qualquer interesse ou utilidade para o nosso quotidiano ou que é indicada para" velhos".

Também apercebi-me que uma determinada percentagem de pessoas com idade mais avançada (60 /80 anos) nunca tiveram esta cadeira porque não frequentaram o secundário, pois os tempos eram outros, é o caso de alguns dos nossos pais ou vizinhos, nunca ouviram falar em Filosofia ou para que serve e quando a menciono ouço de imediato a seguinte palavra: - O quê? Filo...quê?
Devido a estas perguntas e ao pouco interesse revelado por alguns jovens relativamente a esta resolvi escrever um pouco e de uma forma muito simples sobre esta disciplina e conduzi-la para o nosso dia a dia.

Começo por dizer ou opinar que a Filosofia não deve ser apenas para memorizar as teorias de determinados filósofos que mais tarde acabamos por esquecer, mas aproveitar o melhor que ela nos ensina: obriga-nos a reflectir, a pensar, a sermos curiosos, exploradores, pioneiros, desbravando caminhos nunca antes percorridos e o prazer que aos poucos nos vai incutindo pelo querer conhecer e saber cada vez mais deixando-nos sempre insatisfeitos.

Como todos os jovens sabem nas aulas estuda-se hipóteses filosóficas desde Platão, Sócrates, Jesus Cristo, Newton, David Hume, Kant, Hegel, Heidegger, Espinosa, Nietzsche, Russel Bertrand, Ludwig Wittgenstein, Teixeira de Pascoaes, Fernando Savater, Viriato Soromenho-Marques, Hubert Reeves e muitos outros.
Os jovens ao aprenderem certos princípios fundamentais destes e doutros filósofos estão a adquirir certas ferramentas que podem e devem ser úteis para discutirem temas actuais e importantes que se passam na nossa sociedade.

Chegam depressa á conclusão que todos os filósofos especulam sobre o que se passa na época deles, criando na maioria das vezes a sua filosofia e testemunhos das suas próprias vivências. Podem também verificar que foram e ainda são para os que estão vivos, indivíduos interessados com o que se passa no mundo e com o próprio Homem e têm grande paixão pelo conhecimento e pelo saber.

Alguns estudantes desta cadeira estão um pouco saturados de ouvirem sempre as perguntas típicas acerca da origem do Universo e outros temas como: De onde viemos? Tem sentido a nossa existência? Deus existe? Como surgiu o mundo? Deus criou-o? Foi a partir do Big Bang? etc, etc. Estes assuntos são sempre muito relevantes, porque nos dizem respeito e estão intrinsecamente ligados a nós, fazem parte da nossa cultura Ocidental e da nossa história. Porque não investigar estes temas e transportá-los para o presente? Eles são muito actuais.

A filosofia é uma menina incansável, insatisfeita porque quer saber cada vez mais e não existe uma meta de chegada mas sempre um ponto de partida.
Mencionei anteriormente que devemos conduzir esta menina para os nossos dias e vamos fazê-lo.
Afinal o que é Filosofar? É falar de nós, da nossa existência, dos nossos medos, das nossas angústias, das nossas paixões, da nossa alma (para quem acredita que ela existe), da morte, das nossas vivências, da vida, dos nossos pais, da nossa família,do Homem em geral, da nossa sociedade, de economia, de politica, do nosso país, do universo, dos planetas, de Deus, da Internet, de sexo, da homossexualidade, do racismo, dos direitos do homem, de Amor, etc, etc.

Ao abrirmos a nossa mente para este grande leque de assuntos vamos descobrir portas e portas que se vão abrindo e nunca chegamos a uma que esteja fechada. Filosofia é isto e muito mais. Os seus temas são infinitos. Enquanto o Homem não desaparecer do Universo vamos ter sempre filosofia. Será que esta é só para velhos? O que é ser velho? Eu penso que "velho" é um idoso ou uma pessoa que tem uma idade avançada e que podemos aprender muito com ele.

No inicio deste texto falei que uma pequena percentagem de pessoas na faixa etária dos 60/70 anos de um estrato social mais baixo desconhecem esta disciplina porque nunca a tiveram, mas perguntam com curiosidade e interesse : O quê.. filo...
E nós jovens? Penso que todos temos interesse em defender, discutir, falar, opinar sobre o mundo, o Universo, a nossa namorada, o colega do lado, desde que seja de uma forma civilizada, saudável e instrutivo. Vamos então filosofar.....

Maria

Todas as noites "ela" canta num bar. Chamam-lhe Maria. Os seus lábios carnudos pintados sempre de vermelho, os seus longos cabelos pretos cor de azevinho e o seu vestido justo vermelho faz com que se note ainda mais as suas formas do corpo. Maria tem um corpo bem torneado mas é o seu sorriso espontâneo que faz dela a atracção da noite. Os seus olhos castanhos brilham quando ouve as palmas eufóricas do público. Agradece, fazendo várias vénias e simultâneamente foge para trás do palco dando lugar a outra actuação.
No seu camarote vai tirando as pinturas, tira a peruca, o vestido, o peito postiço e por fim a linda roupa interior. Olha para o espelho. Chora convulsivamente. O que vê não se coaduna com o seu ser, com a sua alma de mulher. Olha para as suas mãos esguias, um pouco grandes e para os seus pés que são as partes do corpo que mais a traem. Os seus olhos tristes fixam-se no espelho e pergunta vezes sem conta o porquê desta situação. Porquê que a natureza foi tão cruel com ela.

Para mim ela será sempre " Maria", a mulher que eu um dia conheci.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Uma tarde de Inverno

Era Inverno. A tarde estava fria. A chuva batia nas vidraças. Trovejava. Os trovões eram fortes e secos. Faziam faísca. A minha mãe sentada num banco de madeira na cozinha, tricotava. A minha tia rezava. Na janela do meu quarto avistavam-se os campos ensopados da chuva. A nudez das árvores entristeciam-me. O vento gemia. A casa velha e grande era assustadora. O choro que se ouvia era do meu sobrinho.Um bebé. Espreitei-o. A minha tia continuava a murmurar uma Avé Maria e um Pai-Nosso. As rezas faziam com que o temporal fosse para longe, para as serras ou para os lugares desertos - dizia ela várias vezes e eu acreditava.
Os panos de renda tricotados pela minha mãe estavam quase terminados.
As ruas estavam desertas. O vento soprava. O bebé estava acordado. A minha mãe preparava um biberão de leite. Eu observava atentamente os gestos cheios de ternura com que ela lhe dava o leite. Deitava o bebé no berço enrodilhado nos cobertores. Ele dormia. Eu tinha muito sono e enrolava-me junto dela a saborear os seus carinhos.

Apelo

Enrolas-te nos cobertores. Abraças-te a ti mesmo.
Porquê? Amor porquê?
A vida tem sido fria e dura e a mim não te abraças tu.
Eu sou tão quentinha e fofa que até mete dó
Lembra-te de mim amor, senão fico triste e só.

sábado, 1 de maio de 2010

O meu irmão mais velho

Era Verão e a noite estava gélida. No céu não se viam estrelas.
Estavam todos no pátio. O pátio estava sombrio.
As suas sombras circulavam de um lado para o outro. Os seus gestos tornavam-se mais visíveis no escuro.
O meu pai entrava e saía da cozinha. A minha mãe não saía do átrio e esfregava as mãos uma na outra.
O meu irmão mais novo baloiçava constantemente a perna direita.
A minha tia apertava o lenço que trazia amarrado á cabeça várias vezes. O lenço cobria-lhe o rosto.
Eu pulava e imitava o meu pai. Entrava na cozinha. Estava fria. As janelas encontravam-se fechadas com portadas de madeira. A luz era ténue. A água para o café fervia.

A minha tia acabava de entrar na cozinha. As suas socas de madeira ecoavam no chão. Fez o café.
Apagou o fogão. Resmungou para mim. Fiz-lhe caretas. O seu rosto estava carrancudo. Limpava o nariz ao lenço que trazia na cabeça. Corri atrás dela.
Cá fora estava um gelo. Recebemos ordens do meu pai para recolhermos.

Fui para a sala grande. A sala era antiga e enorme. Tinha duas camas. Deitei-me numa delas. A minha mãe deu-me um beijo. O meu pai murmurou-me algo. Foram ambos para o quarto. Escutava-os. A voz do meu pai sobrepunha-se à da minha mãe. Falavam do meu irmão mais velho.
Ele ia deixar a família. Ele era casado. Os filhos iam com ele mais tarde. A esposa pertencia ao passado.
A sua paixão chamava-se Maria. Maria era Alentejana. Maria fazia parte do seu presente. Era uma história de amor. Um amor violento. Arrebatador. Acontecera- diziam os meus pais.
O amor é paradoxal.
Um drama para todos nós e uma felicidade para ele e para a Maria.
A minha mãe chorava. Perdia o seu filho mais velho porque meu pai não aceitava a situação.

Enrolei-me nos cobertores. A cabeça doía-me. Os olhos ardiam-me. Chorava.
O Alentejo ficava longe. A saudade já se fazia sentir. Estava tonta. Tinha muito sono. O meu irmão mais velho sorria-me. O cansaço era enorme e eu já não distinguia o sonho da realidade.