segunda-feira, 21 de junho de 2010

A casa da praia

Conto
A casa da praia 

A casa da praia continuava caiada de branco. Pequenina e rodeada de árvores e de flores . Tinha nas traseiras um grande jardim. Ela esperava por nós fielmente todos os anos.
Estava quase sempre só e abandonada. Apenas era habitada nos meses de Verão.

Maria, a nossa empregada tinha tudo preparado para a nossa chegada.
O espaço exterior da casa encontrava-se muito limpo assim como o seu interior.

Aquando da nossa chegada entravamos para a cozinha. A mesa da cozinha tinha uma linda toalha de linho amarela. Pousada sobre ela estava o bolo de chocolate, o chá e os bolinhos de mel.
As chávenas e o bule eram do tempo da minha bisavó e continuavam brilhantes.

Os meninos, Joãozinho e o Pedrinho estavam exaustos. Deitaram-se de imediato no sofá da sala. Esta tinha apenas uma mesa redonda e as respectivas cadeiras. Uma das paredes da sala era toda ocupada por livros.
O António chamava-lhe a pequena biblioteca.

O Joãozinho tinha fome e reclamava pelo leite. O Pedrinho já dormia profundamente.
A Maria beijava-me carinhosamente e perguntava-me:
- Então Terezinha ? Este ano sente-se melhor ?
E eu respondia sempre da mesma maneira
- Sim Maria, este ano sinto-me melhor.

Maria conhecia-me desde pequena e sabia que eu mentia.
Esta criatura tão dócil e meiga era para mim como uma segunda mãe.
Não a via como uma empregada mas como alguém muito querido que fazia parte da minha família.
O sol começava a pôr-se. Eu ficava fascinada.

Anoitecera. Maria fora embora.

Joãozinho tinha acabado de beber o leite e adormecera profundamente.
Deitava ambos no único quarto da casa.

Finalmente encontrava-me sozinha com os meninos.
Fechava as janelas e as portas cuidadosamente para não os acordar.

Caminhava lentamente até à cozinha. Bebia rapidamente uma chávena de chá e guardava o bolo para o dia seguinte.

Cansada da viagem deitava-me no sofá da sala coberta apenas por uma manta antiga.
Estava quase a adormecer quando Joãozinho chamava por mim. Perguntava-me pelo pai. A minha resposta era breve.
- Amanhã ele vem buscar-te.
E Joãozinho resmungava mas como estava muito maçado adormecia novamente.

Deitada no sofá recordava os tempos em que éramos quatro e a festa que o António fazia no primeiro dia que chegávamos.

Os bons e maus momentos eram lembrados agora. As correrias até ao mar. Os passeios pela Vila. As avarias constantes no carro porque o António não fazia a manutenção ao veículo.
As discussões. Os berros do Pedrinho porque queria os brinquedos do irmão.

O Joãozinho era mais calmo e o mais afeiçoado ao pai. Talvez por ser o mais velho.

Este era o segundo ano que ficávamos na casa da praia sem o António.

Ia amanhecendo. Sentia-me fatigada e com muito sono.

Adormecera.

De manhã ao acordar sentia-me esquisita. Tinha a sensação que passara muito tempo e que tinha visto um vulto. O vulto do António a entrar para a sala. Abraçava-me. Entrava para o quarto dos meninos. Beijava-os. Tinha sonhado? O sonho aproxima-se à vida. Ou esta vida não passa de um sonho?

O meu corpo estremecia. Tinha frio. Os meninos chamavam-me.
_ Mãe, Mãe
Acariciavam-me o rosto. A Maria sorria para mim.

O Sol entrava por toda a casa. Um novo dia começava. Através da janela podia-se avistar o mar ao longe.
O burburinho da Maria com as crianças confortava-me a alma.

E o António? Ele tinha entrado na casa ?

Sei que tinha entrado eternamente nos nossos corações .

E talvez estivesse connosco na casa da praia enquanto o seu corpo ia desaparecendo para sempre nas entranhas da terra.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

Eu e a minha prima

 Eu e a minha prima

Era Verão.
Nesta estação a minha prima Célia costumava passar uns dias connosco.
Ela morava na cidade.
Desfrutar uns dias na sua companhia trazia-me ansiedade e alegria.

A casa dos meus pais era muito antiga e grande. Tinha um pátio agradável com um tamanho razoável assim como o quintal. O alpendre estava inserido no campo e dava para a rua principal. Podíamos brincar à vontade e usufruir do campo e de caminhadas até à praia.

A Célia chegava no fim de semana. Os dias custavam a passar e arrasavam com a minha paciência.
Eu já tinha feito planos para as nossas férias.
Um turbilhão de sentimentos inquietavam-me.

Finalmente a minha prima chegava a nossa casa.
A festa que fazíamos uma à outra provocava de imediato uma alteração de humor na minha tia.

Depois de todas as manifestações esfuziantes corríamos pela casa dentro até à sala grande. Esta era a sala maior e a mais velha da casa. Dormíamos nesta sala ou no quarto da minha tia. O quarto tinha duas camas. Uma era de ferro e a outra de madeira. Nesse dia conversamos sobre a escola, os colegas novos e de malandrices.

No segundo dia da sua estadia apenas tínhamos tempo para cochichar. A concretização dos nossos planos para as férias começavam.

Ao entardecer a minha mãe começava a preparar o jantar enquanto eu e a Célia brincávamos e segredávamos. O "Moleque" rabeava. Este era o nosso cão rafeiro mas destemido.

O jantar era servido no pátio sendo este coberto por uma ramada cheia de cachos de uvas que nos proporcionava muita sombra e frescura.
A refeição decorria tranquilamente até ao momento em que o primeiro filho do meu irmão mais novo, ainda bebé começava a chorar e o meu pai tentava acalmá-lo.

A minha mãe combinava coisas com a minha tia para o dia seguinte. A minha prima e eu saboreávamos com satisfação as iguarias. E o nosso rafeiro ao longe deleitava-se com alguns ossos e outros petiscos.

Depois do jantar tínhamos sempre um ou dois vizinhos para tagarelar. Quando eles iam embora o sarau continuava no alpendre.
E num instante a noite chegava.
Os meus pais fechavam as portas da casa e todos se recolhiam para os seus quartos.

A minha mãe e a minha tia antes de se deitarem verificavam se estávamos a dormir. O silêncio seguido de uma certa quietação faziam com que as duas regressassem aos seus quartos.
Sentia-se na casa toda uma grande serenidade. Ouvia-se ás vezes o ranger das mobílias antigas e o ladrar do nosso cão.

Finalmente chegava o nosso momento. Saíamos cautelosamente da cama. Caminhávamos com precaução até à cozinha. Abríamos a porta desta que dava para o campo.
O cão começava a ladrar quando nos avistava,  mas depois ficava silencioso.

O luar iluminava o quintal todo. As diabruras começavam. Entre risos e conversas sem nexo depenávamos as macieiras e as pereiras.

A maioria da fruta era recolhida para sacos juntamente com pedaços de terra que tinham como destino derrubar ao acaso determinadas pessoas.
Algumas maçãs ou  eram devoradas ou simplesmente trincadas e deitadas fora.

Chegava a hora de utilizarmos a fruta com fragmentos de terra.
Acertar na cabeça de um transeunte era o nosso objectivo. De seguida escondíamo-nos. As nossas gargalhadas não findavam.

Corríamos o quintal todo atrás uma da outra. Trepávamos as árvores e os muros.

Disfarçávamo-nos  de fantasmas e de espíritos mortos.

Entretanto o campo já se encontrava cheio de pegadas e os estragos eram visíveis.

Cansadas e com sono regressávamos á cama. Dentro de casa o silencio permanecia. Sujas mas felizes adormecíamos.



Amanhecera.
O sol entrava pela frinchas das janelas. Fatigadas da noite anterior sentíamos o corpo dorido.

A minha tia acabava de acordar e ainda esfregava os olhos e limpava os óculos. De seguida penteava-se e punha o lenço na cabeça.
Na cozinha a minha mãe preparava as grandes panelas de água quente para banharmo-nos. As toalhas do banho, o sabão, as banheiras de plástico estavam prontas. Todas as manhãs cumpria-se com esta rotina. As mulheres da casa tinham sempre muito trabalho.

Os nossos nomes eram pronunciados pelas mulheres mais velhas.
Chegara a hora de sair da cama. O meu pai preparava-se para a labuta assim como o meu irmão e a esposa. O bebé deles dormia profundamente.
Depois do ritual do banho, tomávamos o pequeno almoço. O cheirinho a cevada acompanhado com leite era delicioso. Os pães com manteiga eram devorados por ambas.

A manhã decorria sossegadamente quando começamos a ouvir vozes exaltadas vindas da oficina do meu pai. A minha mãe e a minha tia desciam em direção à oficina. Nós ficamos em silêncio a olhar uma para a outra muito cúmplices. Subitamente das nossas bocas soltavam-se  palavras de espanto juntamente com gargalhadas.

Passara-se pouco tempo. Entretanto a voz da minha mãe e da minha tia ensurdecia-nos os ouvidos. Estavam bem perto de nós aos berros. O chinelo na mão da minha mãe ameaçava-me o cu. Eu saltava e pinchava e ela corria atrás de mim. A minha prima ouvia um grande sermão das duas mulheres. Para completar o cenário o meu pai chegava à cozinha prometendo-me um bofetão e a lamentar o quanto tinha sido perigoso termos lançado para a cabeça dos vizinhos terra e fruta. O Sr. Almeida que era tão bom homem tinha ficado com a camisola toda suja e o cabelo cheio de terra. A Dª Augusta ficara com uma saia manchada. Estava muito zangada e ofendida lamuriando-se.

O meu pai lastimava toda esta situação e mencionava mais uns nomes de uns vizinhos que eu desconhecia.

Por fim tudo tinha terminado e o meu cu ainda ardia quando começamos a ouvir a minha tia aos gritos. O quintal ou seja as suas flores estavam todas estragadas.
A correria começava. A minha tia queria puxar-me os cabelos e a mão da minha mãe toda imponente com o chinelo ameaçava-me novamente.

O meu pai intimidava-me relativamente à minha prima. O regresso à sua casa ia ser antecipado.

Todos os anos a história repetia-se e apesar das ameaças dos meus pais , a minha prima acabava sempre por ficar em nossa casa por muitos e muitos mais dias.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Momento

Fim de tarde.
O sol poisava levemente sobre o mar.
As ondas deslizavam até à praia. Suavemente.
Chegavam aos meus pés quebradas acariciando-os.
A água estava límpida e transparente.
O tempo encontrava-se ameno mas a água fria.
A praia estava deserta e limpa.
Ouviam-se o chilrear dos passarinhos.
E os meus murmúrios ouvia-os o mar.
E o meu corpo deitado na areia.
Abraçava toda esta plenitude.