quarta-feira, 28 de abril de 2010

A infância

Domingo de Páscoa.

A tarde estava deliciosa e sorria para mim. O sol aquecia as almas mais tristes e os corações mais irrequietos.

Fazia anos. O quintal era o meu mundo.

As borboletas poisavam nas flores e eram as minhas companheiras. Dividi-as por cores. As brancas levavam-me para o céu, as negras temia-as e deixava-as ir. Estas associava-as ao desconhecido e à noite .Temia-as sem saber o porquê. As com cores diversas eram-me indiferentes.

Com a chegada da Primavera as flores desabrochavam e cresciam. Chamavam-me atenção pelo seu brilho, pelas suas cores mas principalmente pelo seu cheiro que invadia todo o campo.

Todos os anos esperava ansiosamente por esta estação. O esplendor dos dias, o luzir do quintal e de todas as cores envolventes deixavam-me embriagada.

A um recanto perto da horta existia um espaço repleto de relva. Este sitio era muito especial .Deitava-me sobre ele com os braços abertos, o corpo hirto e com os olhos muito arregalados ficava a olhar para o céu durante horas intermináveis.

Quando me sentia aborrecida ou com tédio as minhas amigas viçosas convidavam-me a comê-las. As maçãs e os cachos de uvas gordinhos pediam-me para arrancá-los; as pêras maduras chamavam pelos minhas mãos pequeninas; a horta tão aprumada com as suas couves, alfaces, salsa e tomates dava-me licença para correr à sua volta.

Apenas o limoeiro transmitia-me uma certa melancolia. Tinha apenas dois ou três limões e isso fazia com que eu não desgrudasse desta árvore. Era a mais triste do quintal.

E assim passava o meu tempo a divagar ou a engendrar no que iria fazer no momento seguinte.

Chegara a vez das flores. Observava-as durante tempos infinitos e como magia deixava-as de ver. Tudo desaparecera. Não havia árvores, borboletas, frutos e flores. Apenas existia uma planície enorme.

A imaginação era enorme, a relva encontrava-se resplandecente e bronzeada pelo sol e falava comigo:
- Vem, vem correr.

E eu corria e pulava.

Quando o cansaço chegava a brincadeira findava. Sentava-me e olhava ao meu redor. Toda a magia e energia que sentira, aos poucos desvanecia-se. As vitimas das minhas correrias eram sempre as flores. Terminavam pisadas e estragadas . Ficava atordoada e perdida olhando para elas.
De seguida ficava muito calada e caminhava lentamente para não atrair as atenções sobre mim . Dirigia-me para a entrada da cozinha. A primeira a ver-me era a minha tia. Passava de fugida pela minha mãe e depois pelo meu pai. Refugiava-me no meu quarto durante algum tempo . Permanecia em silêncio. Espreitava da janela do quarto para o quintal. Via a minha tia velha a fazer acenos e ouvia- a discutir com a minha mãe. Chegava o momento de sair do quarto e da casa. Corria para a traseira da casa que dava para outra parte do campo. Ao longe a minha tia avistara-me. Entre acenos e palavreados surgia vestida de preto com ar ameaçador. Eu não resistia em me rir porque a velha era muito engraçada.

Ela corria. Vinha na minha direcção. A situação divertia-me. Ela corria atrás de mim.

O cenário estava a complicar-se.

Atrás dela uma senhora ainda nova murmurava algumas palavras. A senhora gritava. Um homem gritava também.

Estavam muito perto de mim. A velha com ar ameaçador tinha uma vassoura na mão.

O momento não era para rir.

As flores são muito importantes. Mas eu só queria pular, dançar e gritar. Eles não compreendiam.

Eu só via a planície e o sol.O meu corpo saía dentro de mim e puxava-me para correr. Afinal o quintal ou a planície eram só meus.

Estava com fome e já sentia a vassoura nas pernas e os gritos da senhora e do senhor.

Eu matara as flores. A minha tia velha também queria matar-me. O senhor meu pai dava-me um sermão e a minha mãe um puxão de orelhas.

Afinal era Primavera e eu fazia anos e estava com fome e eles não queriam saber.

Recordação

Durou pouco tempo mas ficou-me para sempre na minha memória aquela tarde.
Ele tinha encanto e era engraçado. O seu sorriso embriagava-me. Era a luz do meu dia e da minha noite. O seu andar tão peculiar fazia delicias na minha mente ainda de menina.
Os seus gestos, as suas palavras, os seus murmúrios, o seu sussurro, a sua boca quente e os seus beijos ardentes.

Tudo ficou registado.

Caminhamos lado a lado. Palavras não eram necessárias. Os nossos olhos cruzavam-se constantemente e eternamente. As nossas mãos entrelaçadas falavam, riam e choravam.
Os nossos lábios tocavam-se perdidamente.

Os nossos corpos, amor, nunca se fundiram.

O tempo levou-te mas aquela tarde ficou.

Saudade


Saudade. Palavra forte.
Palavra que dói quando se sente.
A saudade é dor, é um aperto no coração, é um parto que pereceu.
A saudade são lágrimas, tristeza e paixão.
É amor que foi e nunca mais voltou

A saudade é morte, a morte de alguém, um pedaço de gente que foi para sempre.

É uma voz, uma presença que era constante e agora ausente.
Saudade de uma voz, de um mexer, de um querer, de um ser.
Lamurias, lágrimas, ternura, lamentos.

Saudade de um pai, de uma mãe de alguém que foi embora.
Mas esta saudade é tão forte. Esta é como a morte.

A Morte

A tarde estava tranquila.
O sol brilhava, sorria e enternecia. O vento murmurava e segredava algo que eu não compreendia. O mar batia nas rochas com muita força.

Ao longe avistei o João. Aproximava-se cada vez mais. O seu rosto estava pálido, lamuriante e os seus olhos tristes e encovados.
A sua boca murmurava algo tal como o vento.
A minha saia baloiçava levemente. As minhas pernas tremiam.

O frio começara a sentir-se.
O sol fugia. O mar batia nas rochas. O ruído que fazia era intenso. Ao meu redor tudo escurecia.
João abraçava-me. Nem uma lágrima no seu rosto e eu petrificada não me mexia.
A minha saia baloiçava, o frio entrava pelos buracos da minha camisola e o meu corpo já não o sentia.
Nem uma lágrima eu vertia, nem uma palavra da minha boca saía.

O vento finalmente segredava-me o nome que eu tanto temia. Ela viera vestida de negro, misteriosa, rápida e veloz. Odiava-a profundamente. Veio majestosamente com um manto mais negro que o negro. A sua voz ecoava ao longe. Traiçoeira, fria e calculista . Estava com pressa.
Da minha boca apenas um sussurro saiu:
- Mãe ! Ela levou-te Mãe.