O amor na adolescência
Aquele caminhar, aquele sorriso o
deambular do seu corpo, fazia estremecer Antonieta de emoção.
Da janela do seu quarto vivia
toda aquela fogosidade que a fazia
sentir a menina mais feliz do planeta.Contava os dias , as horas, os minutos ,
os segundos sofregamente porque estava
sempre ansiosa pela chegada dele .
O percurso que fazíam até ao mar,
o cheiro a maresia e do húmus, o sol a brilhar do alto, as mãos agarradas como coladas, a cabeça dela encostada ao ombro dele, o olhar dele que lhe
trespassava a alma e lhe devorava o
corpo e assolava os seios . Toda ela estremecia pela aquela envolvência espiritual,
um pouco doentia mas apetecivel. Pela
primeira vez Antonieta estava apaixonada.
Mas Antonieta também era amada não
apenas como mulher mas também como
filha.
A ternura das palavras dos seus progenitores, o calor
das mesmas, o café bem quentinho, o pão torrado, o barulho das panelas, o cheirinho
a sopa, ao assado, ás flores das jarras que predominavam
por toda a casa, o sussurro do pai que mais parecia o vento, chamando-a afetuosamente eram de um conforto inesquecível.
E os anos passavam e outros amores vieram….
Os corpos entrelaçados, o desejo,
a paixão, a novidade, o descontentamento , a expectativa criada mas que saíra lograda e finalmente a decepção. E concluía que afinal ainda não tinha encontrado o amor.

E mais uma vez socorria-se da sua mãe para
ouvir o calor das suas palavras, para não se sentir perdida. Havia sempre um lugar,
um recanto, um aconchego
interminavelmente ou todas as vezes que ela queria. O chão que pisava era forte, duro, resistente e eterno e nunca
se diluiria porque ela, a sua mãe estava sempre presente.Ouvia as suas lamurias, paixões, desilusões como também os
desabafos de momentos felizes.
E mais uma vez o amor a procurou…
Um amor forte, sólido, arrebatador esperava-a. Ele adorava-a perdidamente. Todos os dias aparecia
na escola á procura dela, nas ruelas para vê-la a passar, nos cafés para a
admirar, perto de casa para lhe falar. Até que um dia Antonieta deixou-se ir como
que levada pela corrente de um rio. Deleitou-se com aquela correntia,
saboreou toda a impetuosidade
do momento, gozou aquele instante como se fosse o único .
Fora algo arrebatador, extasiante e delicioso . Mergulharam um no outro vezes sem fim como num belo devaneio.
E os sonhos, alguns tornam-se realidade e
outros não passam de momentos fugazes e efémeros.
E a vida, o mundo diferem ou não da realidade. Ás
vezes é um puro acaso. E nestes acasos muitas
vezes não há piedade, nem compaixão.
E para uma
menina ainda muito menina…
Aquele que um dia tanto a bajulou, a amou, afinal não lhe pertencia
Antonieta seria mais uma entre
muitas na sua boémia vida.
Os dias corriam velozes, traziam
e levavam novidades, o sol continuava a sorrir e o vento trazia e levava um
amor aqui e acolá.
Num dia de Verão Antonieta estava perto de sua casa
numa conversa amena com as suas amigas quando avistou ao longe alguém que bem
conhecia. Aquele corpo a deambular, o acenar com o braço, o jeito que dava ao
cabelo, aquele sorriso…
E aquela
figura aproximou-se daquele grupo de jovens e saudou uma
delas:
- Olá Maria
Aproximou-se e beijou-a
na testa. Sentou-se e olhou para todas até que cruzou com o olhar de Antonieta.
Esta estremeceu e empalideceu.
É Engraçado como a vida nos surpreende, engana-nos , encanta-nos e desencanta.
E mais uma vez a menina que
já não é menina fica perdida sem saber o que fazer e vê-se e revê-se há muito
tempo, como num filme, na janela do seu
quarto, o seu rosto a contar as horas, os minutos e os
segundos num desassossego há espera daquela característica figura que caminhava
com um jeito muito peculiar que a fazia sentir a menina mais feliz do planeta.
Fora a primeira vez que se apaixonara.
Maria levantou-se e apresentou o namorado, que num passado não muito longínquo também fizera
parte da vida de Antonieta. Segura-lhe na mão e despede-se das amigas e vai embora.
E a nossa protagonista ficou colada ao banco sem dizer uma palavra.E
uma lágrima teimava brotar dos seus
belos olhos mas afinal era apenas um mosquito teimoso que a estava a incomodar.
Por momentos quisera que o tempo recuasse
para poder abraçar só mais uma vez aquela pessoa mas a realidade agora era
outra. O presente estava mesmo ali á sua frente, ele e Maria.
Os dois muito juntos e de mãos
dadas desapareciam na esquina do café “ Solvivo”
E a menina que já não era menina
correu até casa com o coração apertado e amolgado, abraçando a mãe e chorando compulsivamente, contou o que lhe ia na alma como de um filme
se tratasse mas cujo fim nestas películas são
bem diferentes .
E o vento segredou-lhe baixinho o
seu nome e acariciou-lhe o cabelo como só e apenas só o seu pai o sabia fazer,
deixando-a mais tranquila e com a certeza que um dia Antonieta também iria encontrar o afeto e o amor que ela bem merecia.