segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Inocente


 Inocente

-Não estou zangado com ela. Mas fica sabendo que ao fazer amor percebi que …como hei-de dizer? Já sei. Ela não estava comigo,  apenas o corpo estava ali …duro como pedra…para mim  estava com a cabeça  noutro lado ou seja em ti. Dá para rir não dá? Ou noutro ou nos dias de hoje…sei lá com outra ou com outro.
-Fica sabendo que eu não sou homofóbico, mas que me mete impressão ver homens com homens isso sim…pensando melhor , ver nunca vi mas que já desconfiei do sobrinho da Mafaldinha , isso já. Não interessa….isso é outra história…eles que se arranhem…   mulheres com mulheres é outra coisa…como hei-de dizer há mais por onde escolher percebes? Estás a rir  para mim? Isso é a gozar? 

És incostante  como as mulheres, umas vezes  estás minguante, deve ser quando viras o rabiote para o sol e á noite apareces assim.  Hoje estás cheia. Não me digas que foi o sol que  te chateou  durante o dia e agora quase que rebentas... 
-Vê-se logo que também és mulher. Conversa de mulheres. Estavas a dormir ou fizeste de conta que dormias? Ou doía-te a cabeça? Tretas e mais tretas. Pois minha menina digo-te que o Sol não é parvo nenhum e eu também não.  

-Eu vou-te contar o que se passou comigo. A Terezinha  andava esquisita. Há dias que nem me falava direito. Se eu sabia  porquê? Juro-te que não sabia.  Não sabes quem é a Terezinha? È a minha mulher.   Se não fosse minha mulher eu não estaria nesta situação melindrosa na qual    estou inocente.

Domingo passado passou pela nossa casa a Tia Joaquina e levou uns bolos  deliciosos  como faz  habitualmente e quando  me viu petrificou-me com o olhar. Fiquei  logo mal humorado e pensei  com que  raio de moscardo elas foram picadas?

-Pensei de  imediato que aqui havia coisa de mulheres, mas para meu espanto quando resolvi ir tomar um cafezito perto do redondo ,o meu tio e padrinho chamou-me quase num sussurro.
-  Alcino, chega aqui por favor.

E eu meio encolhido e com  frio, lá  fui ter com ele.
- Então homem é verdade o que se diz por aí?

Pensei logo com os meus botões: - estou cozido e respondi-lhe que não sabia ao que se referia.
Não é que  o macaco do homem desatou-se  a rir e não parava de  dar-me palmadas nas costas e sempre a dizer:
- tem juízo homem. As mulheres só trazem problemas e a Terezinha  é uma santa.

  
Uma santa dizia ele. Aquele homem é parvo. Santo sou eu. A verdade seja dita a minha Terezinha tem cá um feitio.
Teimosa como um raio. Dúvidas de mim?  Acredita se quiseres ,no entanto  sou incapaz de lhe fazer  qualquer  malandrice. Juro por Deus.

-Vou  contar-te o que aconteceu a seguir. Fui á Farmácia e o Doutor, que é muito amigo da minha irmã quando me viu entrar sorriu-se todo e deu-me uma palmada nas costas e lá foi murmurando:

-então amigo Alcino é verdade o que se diz por aí? Tenha juízo mulher há só uma. A sua..  

-Acredita amiga fiquei com uma raiva ao parvo do médico que a minha vontade era dar-lhe um murro e deitá-lo ao chão mas contive-me e esbocei um sorriso mais fechado do que aberto.

-A história ainda não acabou. Saí da farmácia com a  aspirina que a Terezinha me tinha  pedido  e nem dois  passos tinha dado quando  me apareceu  mesmo á minha frente o Velhaco  do Antunes.

-Sabes quem é o Antunes?  É o irmão da Terezinha. Não sei se estás a ver.  Mais um, não? Este vai dar-me que fazer.

Olhou para mim com uma cara fechada ou melhor dizendo com uma cara de cu. Levantou o braço e apontou-me o dedo e foi dizendo:

- lembra-te que dia é hoje. A partir de hoje não me dirijas  mais uma palavra.

-Estás a rir-te? Pois fica sabendo se ele não fosse irmão dela partia-lhe a cara toda. Sabes qual é o problema? É viver numa terriola e não é para me gabar mas a minha família é muito conhecida e boa gente.  

-Ai meu Deus vem aí mais problemas. Sabes quem vem ali ? Vou-me esconder.

- Estás fora de casa Alcino? O que se passa? Hoje vais dormir no pátio? És mesmo estúpido.

Alcino cada vez encolhia-se mais disfarçando que estava arranjar uns sacos de batatas que estavam encostados á porta de sua casa.

Rosita toda espevitada e muito sensual mexia as ancas rebolando-se completamente e entra na casa ao lado. 

Fecha a porta de casa com força fazendo eco na calmaria da noite.

-Esta mulher é mesmo estúpida. Nem de graça a queria. Provocadora, metediça, bisbilhoteira, parvalhona. Se não fosse ela eu não estava aqui fora ao relento. 

-Sabes o que ela foi contar á irmã da Terezinha ? E a irmã contou ao irmão e este ao meu padrinho…e por aí fora. Odeio-os a todos..vou-me divorciar..Ninguém faz mais pouco de mim .

-Há dias que um homem sente-se tão  cansado desta vida que ás vezes engana-se e… como  naquele dia estava  muito escuro confundi  a  Rosinha com a Teresinha. As casas são próximas e quando aquela provocadora passou  por aqui  meti-lhe a mão no rabo mas estou inocente porque ela fez o resto...e depois sabes como são as mulheres  foi contar  o resto á bisbilhoteira da melhor amiga e esta que  é a melhor amiga da irmã da Teresinha que por sua vez contou á minha Terezinha… e aqui estou eu ao relento…vou-me divorciar..  





sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O Fiel


 O fiel

-E tu pensas amigo que eu não sei? É claro que sei. Vejo nos seus olhos e nos seus gestos. A sua boca diz uma coisa mas o corpo diz outra.

-Sabes está muito frio hoje e vai começar a nevar, ouvi na rádio. Se me perguntares como é que  me sinto em relação ao que tu sabes, muito sinceramente há dias que não sei quem sou, não sinto nada e estou-me a borrifar para tudo e para todos. Acredita que se não tivesse este corpo para alimentar e esta alma para descansar mandava tudo para o raio da avó dela.

-No outro dia ela ao contar-me apenas algumas coisas corriqueiras eu entendi logo tudo. Achei piada como ás vezes o ser humano é tão idiota, quer  tanto omitir as coisas que nem se apercebe que basta utilizarmos um pouco de lábia  ou habilidade com a argumentação usada numa frase que o imbecil ou  a imbecil confessa tudo.

-Está muito frio e hoje ouvi na rádio que ia nevar. Mas amigo quero dizer-te que fiel  companheiro  como tu não existe. Não tenho  ninguém. Imagina que sou cornudo , são as tais coisas que pensamos que só acontecem aos outros mas isto hoje é banal. Caso sim caso sim. 

O meu amigo Francisco contou-me que foi para a cama com a Flor. Bela mulher aquela. Um corpo pequenino mas cheio de curvas, um olhar felino, uns cabelos pretos, uma boca pequena e sensual.  

Raios me partam, sonhei com ela tantas vezes deitada ao meu lado enrolada nos meus lençóis devorando aquela boca pequenina e doce e devido á tal, ao mafarrico nunca o fiz. Lutei contra os meus sentimentos mais animalescos e não o fiz. E porquê ? Porquê? Para não a perder. Burro, burro. Achas normal? 

Todos o fazem. Conheces o Pedrão ? Esse filho da policia foi com a Alberta, a Luísa, a Petra…imagina e tantas mais. E sabes a melhor a mulher dele nem sonha. Tem-lhe uma devoção, uma paixão como nunca vi.

-Mas queres saber amigo que um dia destes o João disse-me que eu estava enganado. Completamente enganado em relação á mulher do Pedrão.Ele  viu-a junto ao mar da Torre muito agarradinha com o Simão. 

Amigo não acredito em ninguém. Esta espécie humana está num patamar abaixo dos animais. Converso contigo porque tu só  enrolas-te com a areia. Com essa não tenho eu problemas. Hoje mesmo vou-me enrolar-me nela .

-Está muito frio e vai nevar. A tia Joaquina avisou-me para me agasalhar bem. Coitada da velhota, é boa senhora e muito religiosa. Disse-me que no tempo dela as coisas eram bem diferentes. 

Os homens andavam com outras e as mulheres sabiam-no e mesmo assim elas eram muito devotas ao seu homem. Outros tempos. Puras donzelas. As coisas hoje são bem diferentes.

- Mas sabes companheiro vou contar-te uma coisa. Há muito tempo no inicio do meu casamento uma loirita apareceu na caverna do Tinoco. Tinha caído do  céu e não tirava os olhos de mim. Confesso que dessa vez não resisti e fomos até á praia da Tininha e…foram momentos maravilhosos.

  
 A tarde passou em segundos. Aquilo foi …não sei ainda hoje explicar que raio foi tudo aquilo. --Tu viste amigo e assististe. Mas muito sinceramente depois de tantos anos nunca pensei que o destino se vingaria. 

Eu Frederico Mendes de Sousa Coelho, de boas famílias  sou agora cornudo! Não acredito. Não mereço. Esta história com a loirita não foi nada, nunca mais pensei nisso, não significou nada, só me lembrei agora porque aquela cabra me traiu. Eu não merecia. Um homem trabalhador , fiel, responsável, dedicado não merece este emblema na testa. ---Maldita seja, maldita.

-Vai nevar amigo, ouvi na rádio. Estás-me a ouvir filho da mãe pois molhaste-me. Ri-te, ri-te. Amanhã não te venho visitar.      

-Esqueci-me de te dizer que acerca de três anos tinha o meu filho uns cinco anos quando a ama dele foi buscá-lo á minha empresa. Linda de morrer. Ruiva com um olhar traiçoeiro mas de fazer perder a cabeça e um peito que parecia convidar-me para um longo passeio, entrou no meu gabinete e sentou-se numa cadeira toda insinuante. Um homem inofensivo como eu… não tive alternativa nem nenhum santo que me salvasse. 

Tu queres saber amigo o que ela me fez?
Levantou-se e inclinou –se sobre mim e mostrou-me aquele peito fenomenal e murmurou com uma voz de anjo:
-A que horas trago o seu filho Sr. Coelho?
-O que achas amigo? Aquela ordinária percebes atirou-se a mim. O que fazias no meu lugar?   -Diz-me seu ordinário. Ri-te, ri-te.
-Sabes o que eu fiz?
-Agarrei-a pela cintura e devorei-a. Momentos inesquecíveis aqueles. Foi maravilhoso. Aquela ruiva, aquele olhar, aquele corpo.
-Vai nevar amigo ouvi na rádio.
-Digo-te colega o destino é tramado. Eu não merecia uma traição. Um homem como eu dedicado á família. 

Naquela casa nunca faltou nada. Acredita absolutamente nada. Esta ruiva foi uma coisa insignificante apenas me lembrei dela porque o meu filho faz hoje anos e a atual ama é uma miúda. Deus me livre não quero problemas não passa de uma miúda.

-Sabes companheiro um dia destes vi-a a passar perto da minha empresa agarrada a um miúdo. É moreninha e muito bonita, Deus me livre podia ser minha filha.

 -Desgraçado ri-te, ri-te da minha desgraça. Aquela cabra vai deixar-me. Mas que lhe fiz eu?

-Vou-te contar uma coisa muito engraçada. Conto-te apenas a ti porque sei que és o único que me é fiel

-No dia que fiz quarenta anos fui com o Pedrão, o Chico, o Zé Maria e o Tiago até uma cervejaria na cidade. Aquilo sim, foram  momentos inesquecíveis. Apareceram por lá três garotas, umas mulheraças. Altas, bem feitas. Todas morenas. 

Tu queres saber o que uma delas  me fez? Devorou-me completamente. Fiquei esquelético apenas com aquele olhar. Um homem como eu, pai de filhos, sério, trabalhador e vem uma escanzelada brincar com os meus sentimentos?

-Sabes o que lhe fiz? Estás a rir-te? Seu filho de um raio. Amanhã não venho visitar-te.

-Eu vou  contar-te o que fiz àquela escanzelada. Deixei-os a todos na cervejaria, agarrei-a pelos braços até ao meu carro e…

-Foram instantes inimagináveis…porque te ris imbecil?

-Aquela morena levou-me á perdição…

-Está a chover e a cair granizo mas na Serra já neva há três dias. Eles disseram na rádio.

-Maldita, repara amigo eu não merecia esta traição. Este emblema.

-O meu filho? Esse não me quer ver. Um pai dedicado como eu, um homem de família, fiel, responsável e trabalhador .

-É como te disse amigo. Os olhos dela mentem e  o corpo, esse não o vejo há séculos.

O vento soprava forte e começava a cair granizo. O mar estava crispado e as ondas batiam forte nos rochedos. O silêncio da noite era quebrado por várias vozes.

-oh Coelho, Coelho, Coelho

-Estou a vê-lo.

Perto do mar avistava-se   um corpo de um homem  junto a uns rochedos. As roupas estavam rasgadas e ensanguentadas e todos corriam naquela direcção...pois podia ser o Coelho.