domingo, 31 de agosto de 2014

O trilho da vida

O trilho da vida

E lá estava eu, mesmo no âmago do temporal, endoidecendo com o barulho do mar. E a chuva não parava e na proa do barco entravam grandes ondas, fortes, possantes e cada vez mais enérgicas…E eu ali perdida. 


E Simplesmente Só. 


O medo apoderava-se de mim. 


Não via ninguém. Tinham desaparecido todos. Estavam todos mortos, pensava eu, se é que conseguia pensar.


Estou só? Onde estão todos? Porque me deixaram?


O que está acontecendo?


Tenho medo, sinto muito medo. Tenho muito frio. 


E no meio daquela imensidão de água que entrava e saía do meu pobre corpo franzino eu gritava: -não quero estar só…não quero morrer assim. 


A angustia e o pavor de não escutar uma palavra, apenas uma palavra de uma pessoa apavorava-me…e as ondas respondiam-me de uma forma cada vez mais acutilante e gélida, rasgando-me as roupas, tornando-as em farrapos. 


O corpo rebolava na proa do barco como se fosse uma delicada bola. Sangrava, gritava, gesticulava.


Os pensamentos não paravam porque estes nunca param. Então quis perecer para não pensar, para deixar de existir. Para não sentir nada.


Mas o nada prolongava-se, enchia-se de terror e já não era nada. Era tudo. Era qualquer coisa. Existia, estava ali naquele momento. O nada não me deixava. Não era um vazio, porque este nada era algo e este vazio estava cheio de nada. 


As ondas brincavam com o meu ser, com o meu pobre corpo. Atiravam-me de um lado para o outro sem piedade, sem misericórdia. E eu finalmente percebia que todo aquele vazio e todo aquele nada estavam cheios de tudo.


E aquele tudo sempre estivera á minha espera. E naquele predestinado dia deu-me tudo numa bandeja. 


Chorava e vozeava pelos meus. E eles também não estavam 


Doía-me o corpo, estava exaurida, extenuada e então chamei por Deus:.


Deus tu não existes, deixaste-me, que mal fiz eu ?


Dói existir, dói sofrer, não quero padecer. 


Finalmente o mar levava-me.- Que me carregue até ao infinito, que me leve para sempre. 


O corpo não o sentia mas os pensamentos ainda lá estavam.


Ainda cá estou ? Onde estou? Meu Deus, estás aí? Existes? És tu? 


Fala-me por favor. Eu ainda estou aqui, ainda penso, ainda existo. 


Diz-me onde estou? Porque padeço? É mistério? Porque não falas comigo? Para onde vou? 

Para onde estou indo ? 


Estou passando por um grande turbilhão, por um enorme reboliço, por um trilho com gigantescos pedregulhos. É verdade, confesso, sou levada por uma onda tenebrosa. 


- Não consigo ver, nem enxergar coisa alguma. -Vou rezar. Deus...-Não sei rezar, não consigo, esqueci-me, estou esgotada.


Sinto agora um certa quietude. Porquê esta repentina mudança? Mudei de vereda? caminho para o céu ? Não posso estar no céu. Afinal onde está Ele? Sempre acreditei nele. Aos outros clamava: - Qual Deus? Que Deus? 


Mas aquando aquela agitação e depois de muito desbravar senti que precisava Dele. E Ele estava lá. Porque eu vivenciei-o.


Ele é Tudo, é Nada, é o Vazio, é Pleno, é Tormenta, é Angustia,é Medo, é tudo isto e muito mais; até chegarmos a Ele. 


Foi o trilho que eu percorri e onde também sofri. 


Outra vez esta calmaria?


As ondas outra vez? O frio da água ? Uma luz ténue?Um baloiçar deleitoso, umas correntes gélidas, uns troncos, livros, roupas, tralhas, o azul do céu, o sol a surgir, o vento a sussurrar, um cansaço delicioso, muito sono, um sonho bom, muita luz, vozes longínquas e finalmente devo ter adormecido.


Ouço gritos, clamores, algazarra.-Estou onde? Vozes? Palavras? Pessoas?


Entrevejo uns rostos. Que estranho, conheço-os. Não estou só. Estou a vê-los finalmente os seus rostos, os amigos, o marido, a família, os vizinhos.


Que alegria! Que contentamento! Que jubilo meu Deus. Obrigado Deus. 


Agora me lembro, falta Ele. Não vejo o seu rosto e quero agradecer-lhe. Ainda estou aqui com todos aqueles que amo e que percorrem este trilho.


Olho para aqueles rostos que brilham e encantam. Gritam eufóricos, exaltados. 


Agora compreendo. Ele está aqui, pertinho de todos nós.


Sinto-o. Ele está nos gestos dos amigos, no semblante da família, no sorriso do companheiro, na gritaria dos vizinhos, no estado expectante dos doentes, na satisfação dos médicos e no rir dos enfermeiros. 


Está na calmaria do mar que avisto do meu quarto, no sussurrar do vento que poisa levemente no meu rosto. 
E na chuva que bate serenamente na janela da enfermaria, como nas feridas saradas do meu corpo. 

E no meu renascer, na minha vontade de saltar da cama e correr indefinidamente como se tivesse asas e pudesse voar para sempre.. 







quarta-feira, 25 de setembro de 2013

saudade

Saudade
Confesso que me lembro raramente de ti porque senti que quiseste partir, por isso respeitei desde sempre a tua vontade e quando recordo o teu rosto vem-me sempre á memória umas feições  tranquilas, serenas e felizes.
Lembro-me como fiquei admirada e contente por ver finalmente que tinhas encontrado a paz que tanto almejavas.
Eu sei que pode parecer confuso e paradoxal  pois quando alguém que nos é tão próximo e perece e sendo o nosso pai, eu   deveria chorar e a tristeza invadir-me até aos dias de hoje mas o teu caso foi diferente.  Senti que a morte para ti foi talvez uma opção e que nunca te assustou, digo isto porque em muitas coisas são tão parecida contigo e que em muitas situações opto por desistir. É mau ? É uma má opção ? Talvez. Apesar de tudo continuei  e tu partiste.
Tu escolheste partir e não foi de repente mas progressivamente e infelizmente eu  não consegui  percepcionar  ou captar o teu estado de alma mas ouve quem a sentisse e eu  não estava sintonizada na mesma estação que tu estavas  e como lamento porque talvez pudesse fazer algo ou talvez não e confesso que te vi tantas vezes a sonhar por metas umas tangíveis e outras  não e continuavas sempre com um sorriso maroto nos lábios.  
Lembrei-me de te escrever hoje   porque senti saudades tuas. Estamos no Verão e com a chegada deste  avizinham-se as romarias ou as festas tradicionais das aldeias e das vilas e ao visitar  a tua última morada deparei-me com os preparativos do tradicional e  habitual festejo   desta terra  e como era uma das tuas preferidas a emoção apertou forte e a tua recordação assolou-me de tal forma que revivi de como tu me pegavas na mão quando era eu ainda  menina e levavas-me a passear por entre  risos e gargalhadas  desta gente que comemora com muita paixão este tipo de festividades.
Lembro-me que  não gostava que tu parasses para conversar com alguém e  sempre gostaste de o fazer e eu  não tinha paciência para tal como é habitual nas crianças irrequietas e então fazia birra quando paravas. Era mesmo pequenina, teria uns dez anos, por aí. Não sei o porquê destas lembranças depois de tantos anos já passados.  Recordo-me também daquelas barracas de farturas e daqueles cafés ambulantes que servem o sempre eterno Sumol que hoje em dia os meninos continuam a preferir e tu também tinhas uma inclinação por esta bebida. 
Nunca pensei dizer ou mencionar esta palavra que raramente a uso porque só a uso quando a sinto e não a vulgarizo como acontece muitas vezes no quotidiano, nos filmes, nas novelas e afins, quero-te dizer que ainda  te amo muito meu querido pai. Se foste perfeito ? Quem é perfeito? Citem-me alguém mas não o quero conhecer. È claro que há atitudes que nos magoam ou que não se coadunam com a nossa personalidade e entramos em conflito.  
 Confesso que contigo entrei  muitas vezes em conflito. Sim, muitas vezes e quantas vezes desejei  ter um pai perfeito ou diferente mas com o passar dos anos vi que isso é uma quimera  ou uma utopia mas estas coisa nunca se vê de imediato pois temos que nos distanciar no tempo e então é que conseguimos  analisar determinadas situações.
Reconheço também que deixavas-me fazer tudo o que  eu queria e  houve  determinadas situações relevantes  que   não o deverias ter feito  mas a vida é mesmo assim e com o passar dos anos, nos mais recentes,   eu sucumbia aos teus caprichos de velhinho porque inconscientemente sabia que a morte estava mais próxima do que em qualquer altura da tua vida. E também percebi que eu era a tua querida menina, a única, e foi muito mesmo muito bom amar-te assim ainda em vida e isso foi recíproco e talvez por isso tenho saudades tuas.
  Adeus pai, até a um dia. Sei-o agora que as tuas lutas aqui neste mundo terminaram. Um grande beijo daquela que te ama muito.  









Adeus Amor

Adeus Amor

Gostava às vezes ser ave mas só às vezes. Para poder voar nos dias mais quentes entre as casinhas das aldeias próximas do mar e nos dias mais frios aconchegar-me nos beirais dos telhados a escutar o lamento do vento. 

Como gostava de voar para poisar numa árvore aqui e acolá, depenicar uma flor atrevida e beijar os teus lábios carnudos e depois sobrevoar o mar e sentir o quentinho das tardes de Verão.

Ser ave e matreiro para ouvir as conversas e as tertúlias das pessoas, como ouvir os seus segredos e confissões, escutar o sonho dos sonhadores, a coragem dos valentes, a renúncia dos corajosos, o lamento dos afortunados, o remorso do consciencioso, o chorar dos arrependidos, a tristeza dos aflitos, a derrota dos bravos, a vitória dos fracassados, as confissões dos apaixonados e o adeus dos enamorados.

Ouvir todos eles para depois esquecer e tornar a voar sobre o imenso mar azul e entretanto voltar para o aconchego do lar cheia de boas vibrações, sentido o âmago da vida no seu melhor e debicar o teu nariz e acordar-te sussurrando ao teu ouvido o que escutei e dizer-te que foi apenas um sonho onde eu tinha asas e que todos os seres humanos são iguais nas suas diferenças e que a vida obriga-os a contornar muitos obstáculos numa luta incansável e nem sempre conseguem numa primeira vez ladear todas as barreiras.


E quando adormeceres as minhas asas voltam a ganhar vida e fujo pela janela voando em direção á vida e sem destino, sem saber se é um adeus ou um até breve e murmurando:

- Adeus amor

quarta-feira, 15 de maio de 2013

mar



Mar 

Mar meu amigo e companheiro 
da minha labuta

Do sol, da chuva, do vento e do tempo
e de mais alento

São segundos, minutos, horas, dias e eu ao relento


Trevas, escuridão, luz e aurora
E assim meus olhos choram


E tudo passa


Mas quando o coração não deixa
E ali fica algo que nos devora
E naquela praia deixa


E tu meu amigo, meu companheiro
abafas-me com o teu cheiro

tão delicioso e matreiro
mergulhas-me no teu seio
e é isso que eu tanto anseio


O teu corpo frio e ondulante
e ás vezes arrepiante
que não tem principio nem fim
e chamas sempre tu por mim
ouves a minha alma
e eu sussurro

na tua até ao confim


mas perdoa-me amigo
se me deito contigo
É porque em ti confio
no teu corpo sem fim
mar meu amigo e companheiro
da minha labuta
e desta luta

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Os trabalhos de casa do menino Paulinho



Os trabalhos de casa do menino Paulinho

Como era habitual o Sr. Fausto passava pelo escritório do meu pai para adquirir os documentos necessários e posteriormente entregá-los aos clientes.

Nesta altura do ano chovia bastante e fazia-se sentir em todo país um frio que penetrava os ossos, de tal forma que só se estava confortável com um bom aquecedor bem próximo de nós.

O meu pai tinha o seu escritório há muitos anos no centro da cidade do Porto e exercia advocacia, ainda não tinha eu nascido. A minha mãe morrera quando eu tinha dez anos e desde essa data fatídica que o meu progenitor levava-me com ele para o seu local de trabalho e ajustava assertivamente com a Tia Dolores as horas exatas em que ela tinha que ir buscar-me e levar-me á escola.


                                                                          ……

Desde que mamã tinha morrido que o meu mundo tinha encolhido. O Papá tinha deixado de fazer festas em nossa casa, desistira de comemorar os aniversários, de celebrar os dias das peregrinações tradicionais da nossa terra, de convidar a família para jogar jadrez que ele tanto gostava, de chamar as minhas primas e os meus primos na altura do Carnaval em que nos mascarávamos. E para agravar mais a situação  resolvera vender a nossa casa de férias situada em Coimbra.

Afastara-se de toda a família restando apenas os seus clientes, a secretária dele a menina Patrícia , a minha tia Dolores, a bábá Teresa a nossa cozinheira, o sempre sisudo Sr.Fausto e eu.

Papá não podia saber o quanto eu detestava o sisudo. Sempre que ele entrava no escritório sorria para mim com a boca fechada e cumprimentava-me cordialmente:

- boa tarde menino Paulinho. Como tem passado?

E eu sorria secamente e respondia:

- Bem, obrigado Sr. Fausto.

Ele entrava para a salinha que dava acesso ao escritório e pedia licença à menina Patrícia para entrar. Fechava a porta do escritório delicadamente para não me assustar e ficava eu na salinha sentado numa secretária antiga a fazer os trabalhos de casa sozinho durante uma eternidade.

Mal o sisudo entrava o meu sossego era permanentemente abalroado por uns barulhos estranhos, alguns risinhos dele e da menina Patrícia  e um ranger de mobílias.


                                                                  ….

Esta situação arrastou-se durante muito tempo mas somente quando papá não se encontrava no escritório.
O problema era que eu perdia o raciocínio e não conseguia fazer as contas de dividir nem de multiplicar. E quando papá chegava ouvia um valente sermão.

Entretanto chegava a minha tia Dolores e pregava-me uma homilia obrigando-me a fazer os trabalhos de casa debaixo de uma grande pressão.      

Tentei várias vezes contar à minha tia que não conseguia concentrar-me porque ouvia uns barulhos esquisitos. E sempre que tentava desenvolver a narrativa dos ruídos acabava por levar um puxão de orelhas. 

Dizia ela que eu inventava histórias para não cumprir com os meus compromissos escolares. E como se não bastasse contava ao meu pai que eu tinha uma grande imaginação e se continuasse desse jeito que a melhor solução seria arranjarem-me uma educadora para auxiliar-me nas tarefas escolares.

Papá como era muito somítico nunca concordava com a Tia Dolores até que um dia a titi o convenceu.


                                                                   ….

Nunca me esqueci daquele dia quando a educadora apresentou-se no escritório. Não era mais bonita que a mamã mas lembro-me que o papá ficou muito embaraçado e nervoso. Quando a Titi chegou olhou-a de soslaio, não sorriu e estiveram todos muito tempo a conversarem no escritório de porta fechada.


Entretanto fiquei sentado na minha antiga secretária sossegadamente a cumprir com o meu  dever, fazendo os trabalhos de casa,  que pareceu-me uma perpetuidade, quando finalmente eles saíram papá disse-me:



- Paulinho a partir deste dia a menina Josefina vai-te auxiliar nos teus trabalhos escolares.

Todos sorriram e eu também porque finalmente tinha-me libertado do sisudo, do ranger das mobílias e daqueles incomodativos risinhos dele e da menina Patrícia.

     
                                                                        ….

 Agora papá não me levava para o escritório. Eu Ficava a estudar em casa com a menina Josefina, tinha a companhia da baba Teresa e a Titi levava-me á escola como sempre fizera.

Durante os primeiros meses do ano lectivo tudo correu maravilhosamente e nunca mais vi o sisudo que o detestava mais que anteriormente, pois devido a ele só estava com o meu papá à noitinha.

Faltavam ainda dois meses para o ano lectivo terminar quando a Titi foi substituída pelo meu pai.

Foi uma grande tristeza para mim porque ela apesar de ser muito resmungona trazia-me chocolates e não comentava isso com o meu pai porque ele opinava que faziam mal mas Titi não partilhava da mesma opinião.

Um dia Titi apareceu em nossa casa e chorou muito e papá resmungou com ela e eu não percebi o porquê, pois os adultos são complicados e fiquei aborrecido com ele.

Os meus trabalhos escolares estavam a complicar a minha vida,  tinha ficado livre do sisudo mas não queria ficar  sem a minha tia.

Papá levava-me todos os dias à escola e a menina Josefina encarregava-se de ir lá buscar-me.

Titi de quando em vez passava por nossa casa e ficava muito contente porque eu tinha melhorado muito na matemática e no Português.


                                                                          ….

Até que um dia estava a menina Josefina a explicar-me o sinónimo da palavra “ paciente” quando papá chegou e murmurou-lhe qualquer coisa a ouvido e entraram na sala adjacente e disseram-me para eu continuar a estudar.

E assim se repetiu aquela situação até ao final do ano lectivo.

E  sempre que o  papá se aproximava  da menina Josefina segredava-lhe ao ouvido e fugiam ambos para a outra saleta.

E ficava eu sozinho  na secretária  , perplexo, meio tonto, sem perceber coisa alguma.   As horas passavam e  a minha angústia aumentava. O mesmo problema voltava. O meu pai era igual ao sisudo.

Os meus ouvidos escutavam uns ruídos e risos esquisitos que não me deixavam concentrar nas minhas tarefas escolares, deixando-me consternado e não somente detestava o sisudo como papá também.  



                                                                               ….

Desde então muita coisa na minha vida aconteceu. Cresci, amadureci, namorei, licenciei-me e exerço advocacia. Casei, fui pai e assim a vida foi decorrendo.  

Passaram-se mais de vinte anos desde esse tempo de menino e ainda hoje recordo com graça e humor toda aquela situação, como a vivi e senti naquela altura.

Atualmente Josefina faz parte da nossa família e ficou a substituir a minha querida mãe.
O Sr. Fausto é um senhor idoso e continua solteiro e a “ menina “ Patrícia é casada, teve um filho e tem um neto da idade da minha filha Maria.

A minha imprescindível tia Dolores morreu no ano passado e a bába Teresa faleceu, era eu ainda adolescente.

O meu pai continua casado com a Josefina, ambos com sessenta anos e nunca tive coragem para lhe contar acerca do romance engraçado que existiu entre o Sr Fausto e a menina Patrícia, embora naquela altura não entendesse bem a situação mas com o passar  dos anos apercebi-me naturalmente do que tinha acontecido, que mereceu ser contado aqui de uma forma divertida.

















segunda-feira, 22 de abril de 2013

Querida Tia





Querida Tia


É tão bom saber  que  uma pessoa consegue ressuscitar tantas vezes quantas quisermos. Precisamos é de ter  muita força, determinação  e perseverança. È  como  o  nascer  do sol que surge   todas as  manhãs  e é lhe indiferente se chove, se faz frio ou calor, se os homens estão tristes ou alegres, em paz ou em guerra . Esses  caprichos não lhe interessam. Ele simplesmente aparece e é exacto,  até ao contrário acontecer (defendido por David Hume) , mas isto é outra história. Portanto temos que lhe seguir as pisadas nesta exclusiva  peculiaridade, desabrochar e viver todos os dias.  


Claro que tu sabes Tia ou não fosses tu a ensinar-me muita coisa. Uma delas é tornar as adversidades em pontos fortes porque a coragem não pertence exclusivamente aos guerreiros ou aos soldados que em nome da pátria ou para defender as sua convicções ou ideais não se “importam” de perder a vida.  Estou a ser injusta, quem quer perder a vida? Penso que todo o individuo ama a sua própria vida mas a conjuntura ou o paradigma em que ele ou o seu país se  encontra assim o sujeita. E assim vidas se dissipam.

Esta palavra coragem também pode associar-se a todos nós,  pessoas simples, igualmente  combatentes   que travamos e lutamos diariamente com muitas  contrariedades. È evidente que uma guerra feita com armas que sustentam  interesses políticos, religiosos e sociais é diferente. É devastadora, sanguínea, cruel e desumana mas a nossa luta diária de uma outra forma  também não o é ?  Aquela em que nos  enredamos todos os dias, horas, minutos e segundos,   também é bárbara. Uma batalha dia após dia, noite após noite e   se não tivermos cuidado devora-nos e corrompe-nos silenciosamente. Tu sabes Tia do que eu estou a falar ou não fosses tu uma guerreira, uma lutadora feroz, enfim uma sobrevivente.

E como só tu sabes que para vencer os obstáculos temos que usar a persistência, a sabedoria, o amor e também dizer não a muitas coisas, pois  ser mãe, esposa, filha, prima e sei lá mais o quê é preciso  muita perícia, destreza e inteligência.
Ensinam-nos na escola, na faculdade, nos colégios muitas teorias mas nenhum deles  tem um livro com instruções para gerir estas graduações próprias e intrínsecas á vida. Se assim fosse não haveria tantos conflitos familiares e profissionais.   Ou haveria?    .


Minha doce tia, hoje quero-te dizer que finalmente cheguei ao meu destino de férias e tu sabes qual é. Aqui está um dia maravilhoso, cheio de sol e uma temperatura amena. Como é possível o ser humano esquecer-se do quanto é suave e delicioso este  sol e mar que  acalenta-nos, adormece-nos e  suaviza cada partícula do nosso ser? E  renascemos, nascemos, rejuvenescemos e    florimos   novamente e finalmente deixamos de pensar  na labuta do dia a dia.


O nosso coração dá de si outra vez, palpitando ou batendo e um desejo enorme  abraça-nos  e envolve-nos num enternecimento tal que só apetece amar tudo e todos e quem sabe apaixonarmo-nos de novo.


Pelo um príncipe ? Talvez. Quem sabe tia? Quem sabe? O meu  em breve vem ter comigo e traz os nossos  passaritos.

Tu sabes que eu estou a brincar e bem sei  que estas  coisas de coração são muito delicadas e labirínticas. Se nos distrairmos um pouco e não estivermos atentos ao que se passa ao nosso redor, dentro da nossa família ou  do nosso lar   as consequências podem ser desastrosas. O ser  humano está sempre   insatisfeito pois esta é uma  característica que lhe é inerente.  

Por isso eu digo várias vezes que temos que acender sempre a tal  luzinha. Aquela que ilumina e mantém  o nosso ser e a nossa morada  em harmonia. Ah! Tia , lar doce lar! Lembras-te? O Tio  diz isto muitas vezes.



Já dizia a Avó Maria que quem soube durante toda a sua vida preservar o que tem e não se referia aos bens materiais, embora  também precisemos deles, mas  mencionava como prioritário as amizades e os afetos é sem dúvida  aquele que  possui  o melhor e o maior  tesouro do mundo.


Estás a pensar que tenho que ter juízo? Eu sei tia mas na maioria das vezes no aconchego do nosso lar a nossa lamparina quase que se apaga e é necessário revitalizá-la e tu docinho és perita nisso. Se não regarmos o nosso jardim as flores murcham  e em qualquer esquina ou recanto pode aparecer  alguém que nos faça mudar de rumo ou de percurso.

Mas eu só penso nos meus passaritos. Eles  estão bem e por eles eu vou até ao fim do mundo, por isso não te preocupes porque eu não estou disponível para um novo capitulo nessa área e  quero-te dizer o quanto  aqui, neste recanto paradisíaco estou a sentir-me jovial e fresca. Eu não quero trocar de ninho porque o meu está confortável  e cheio de bem-querer.

E entretanto digo-te que   nestes meus voos passam-se coisas muito engraçadas que quero partilhar contigo.

Estou neste momento sentada, num  bar muito soberbo   situado à beira mar e estou-me a sentir uma autêntica adolescente. Ao meu lado estão três cangurus todos sorridentes e amáveis querendo meter conversa ardil comigo.  Parecem uns garotos querendo mostrar as suas bravuras. È engraçado tia mas o homem não cresce, neste capitulo não amadurece, pode sim envelhecer e tornam-se tão impertinentes! E ás vezes até engraçados e imaturos.

Lembras-te do tio naquela tarde de Verão que cismou que os calções verdes lhe serviam e acabou por os vestir e andou com eles rasgados no rabito durante toda a tarde? E que os vizinhos fartaram-se de rir mas ele mesmo assim não os tirou?
  
Quando me recordo dessa tarde desato-me sempre  a rir.  E a tia sempre atrás dele com vergonha que lhe vissem o rabo? E o tio Lucas para o apoiar rasgou também os calções dele e foram até ao café do Sr. Alberto? Lembras-te ? E cheios de razão comentavam em voz alta que a um homem tudo fica bem.  E a Dª Rosária farta de os escutar  disse-lhes  que não gostava de ver rabos  flácidos e eles responderam que flácida era avó dela?  Foi uma tarde tão divertida tia. 
  
Mas mudando de assunto tia, não nego que estou radiante e com o meu ego aos pulos, imagina. Já não tenho idade para estas coisas mas que isto me diverte e tem a sua piada, isso tem.  Nestes momentos esquecemo-nos dos quilos que temos a mais, da celulite, das angustias e de tantas coisas que  nós  mulheres inventamos e que acabamos por massacrarmo-nos sem necessidade.  

Estou com aquela camisola azul, cor do  céu que me deste e aproveito para agradecer-te porque fica-me muito bem. O azul dela combina com os meus olhos, deve ser por isso e também porque sinto-me muito feliz e irradio cá para fora todo este sentimento de plenitude, de tranquilidade e de paz juntamente com algo de enigmático que faz com que os outros se sintam bem com a minha presença.

Sei querida no que estás a pensar mas digo-te que eu não trocava esta fase da minha vida por outra qualquer que tenha vivido no passado. Estou mais gordinha? Mais velha ? Claro que estou mas a sabedoria da idade compensa isso tudo. E também quero-te dizer que quando acabar as férias vou  deixar de ir ao ginásio em prol de umas boas caminhadas. Quero ver o dia, o sol, o cair da noite, respirar a vida e aproveitar cada momento fresco e novo que ela me traz.

E agora querida tia vou terminar com o mesmo estado de espírito com que  comecei. O sol está a pôr-se.  O clima está esplêndido, agradável e eu sinto-me perdidamente encontrada e restabelecida. Vou  para o  Hotel que fica aproximadamente a cinco minutos daqui e quando lá chegar  tomo um bom banho e  vou vestir aquele vestido lindíssimo preto que tu  ajudaste-me  a comprar   para celebrar  esta noite tão especial.




Tenho que apressar-me  pois o meu príncipe está a chegar com os meus  passaritos numa linda e bela  carruagem puxada por dois magníficos cavalos. E  assim começa  mais uma  etapa da minha vida em que eu deposito nela toda a minha fé. Espero que seja um período cheio de prosperidade e que dure eternamente e  assim faço jus ao que avó Maria dizia, preservo o que tenho e vou acendendo uma  velinha, hoje,  amanhã e sempre ...e assim é a vida a minha vida, apesar das  tempestades continua  toda iluminada. 



Muitos beijinhos desta tua sobrinha que muito te admira,











segunda-feira, 15 de abril de 2013

Á minha querida sobrinha



Á minha querida sobrinha
Dizia a tia da Ana  com a sua habitual perícia:
Um dia quando fores mais velha vais  confrontares-te com o reboliço e com a agitação  desta  vida e há  sempre   um momento em que necessitamos desesperadamente   de fazer um interregno  ou um balanço  para pensar sobre o nosso  legado.. Uma das primeiras  coisas que  constatamos é que   o tempo passou tão rapidamente, que não viveste tudo, que muito ainda está por   fazer e que o prazo começa a escassear   ou então também se passa o contrário que finalmente chegou a hora de  assentar , que já contribuíste com a tua parte  como cidadã do mundo e resolves dedicar-te á família, isto é,  se não tiveste oportunidade   de o fazer ou então  se o fizeste talvez possas  dedicares-te  a ti mesma ou aos amigos mais próximos.


E nesse dia porque há sempre um dia em que fazemos um julgamento a nós mesmos (a apreciação dos outros quando nocivos ou não instrutivos  não  interessam, são desprovidos de valor), refletimos  ponderáramos  sisudamente  sobre esta jornada que percorremos diariamente e as  recordações assolam-te. Umas são avassaladoras, outras dolorosas mas também existem aquelas que ainda hoje te fazem vibrar.   


E recordas-te porque recordar também é viver desde que não fiques por lá, desde que não permaneças lá, mas enquanto revives aqueles momentos dás por ti a fazer comparações inevitáveis. O que vês? Principalmente se   estás a viver o presente   ou se este não passa de quimeras e  que simplesmente não estás a usufruir dele devidamente.  

Lembras-te de ti mais nova, não me refiro apenas ao aspecto físico mas aos teus pensamentos, ao teu modo de encarar a vida e às suas vicissitudes. E reparas que no passado os teus pensamentos a  tua  forma de vivenciar as coisas eram muito  diferentes e algumas continuaram iguais.
Algumas crenças e ideais transportámo-los  para a nossa idade adulta outras foram morrendo pelo caminho.

As agruras desta jornada por vezes levam-nos a cortar com muitas ambições  ou aspirações mas outras quezílias  fazem  fortalecer ainda mais os nossos sonhos, a não desistir deles e a continuar.

Mas minha sobrinha  ás vezes o fardo fica bem pesado que o que nos fortifica é   sempre algo a contrariá-lo , o nascimento de um filho, de um neto, de um sobrinho,   um amor proibido  que se viveu e que nos elevou a nossa auto-estima, um primeiro ou um ultimo amor que nos fez sentir  num paraíso,umas boas e quantas  amizades,um sarau animador em casa da família e amigos, uma viagem de sonho com o nosso companheiro, um fim de semana longe de tudo e de todos, um simples pôr ou nascer  do sol, aquela chuva a cair e os lençóis quentinhos a enrolar-nos, uma louquice qualquer para sair da rotina, umas tantas malandrices, sei lá …muita coisa boa…
  
E quando voltámos ao presente o que vimos? Vimo-nos a nós nesta fase adulta. E o que somos nós agora?  Somos adolescentes inacabados  com mais uns quilos de responsabilidade ou com um caderno abarrotar  de  compromissoso e encargos.  Somos o ontem e o hoje . Somos o medo, a responsabilidade, a prudência, a loucura, as convicções, a criança,o jovem, o  adulto  a alegria e a tristeza, as inseguranças e tudo o mais que inventamos. Sim porque o Homem inventa e a obra cresce. Somos peritos  a fabricar dificuldades mas também bons a  construir sonhos.

Mas o que mais me assusta são aqueles que nesta caminhada estão  mortos ou  moribundos. Estes pelas circunstâncias ou não da vida tornaram-se azedos, tristes, sombrios…e foram comidos pela vida.


Tem cuidado sobrinha tenta sempre fugir deste atalho…porque ele vai aparecer-te muitas vezes e tentar engolir-te.  É neste trilho que aparece os julgamentos alheios maléficos. Este tipo de juízo não nos interessa, até  porque cada um é juízo de si mesmo. A nossa vida é apenas nossa. O nosso Juízo é a nossa inteligência que por vezes se afasta e é aí que surgem os nossos tropeções. Mas a vida ensina-te que tens e deves levantar-te.  


Enfim, chegamos á fase madura com uma soma de experiências acumuladas, fracassos que não passam de lições mal estudadas e que acabamos por os aperfeiçoar e fazer tudo de novo , recomeçando; somos um acumular de sucessos, erros, ignorância …mas temos que passar á fase seguinte.

  Tudo isto minha querida sobrinha para dizer-te ou responder-te á tua pergunta,  que como tu eu também vivi o meu primeiro amor, com todas as dúvidas que ele traz, com toda a melodia harmoniosa que só ele por ser o primeiro sabe tocar, e que nos faz ouvir todos os sinos a badalar, ver  tudo mais  cintilante, a terra, o mar, o rio, as flores, as pessoas. Senti r e ver amor e sorrisos em todos os rostos que encontrava. Enfim um estado de graça e de plenitude.

E lembro-me de querer ficar lá para sempre naquele instante e naquele momento. Mas temos que avançar querida  porque a vida não estagna, não cessa eternamente num determinado local, ela continua sempre na sua mutabilidade. Ela é inconstante e só faz algumas paragens e depende de ti ou não trazeres o melhor ou o pior delas.

Portanto pequenina  não faças muitas perguntas porque o teu comboio parou nessa estação e eu aconselho-te a saborear e a desfrutar tudo de bom que essa paragem te traz mas toma cuidado porque a ponderação e a medida certa das coisas fazem todo o sentido em determinados âmbitos como o amor, não te percas no primeiro mas também não te acanhes e lembra-te que outras paragens vão suceder  até ao fim da tua vida e temos que saber  dosear bem as coisas,  que um pouco de loucura não faz mal a ninguém e que ser criança é renascer em cada feito e  se não agires com sabedoria aprendes numa outra interrupção…porque afinal a vida é errar, aprender e assim sucessivamente.


Minha querida sobrinha eu também precisava de um conselho teu. O teu tio cada dia está mais rabugento e eu sem paciência para o aturar. Esta é a minha paragem e vou ter que a saborear da melhor forma. Vamos passear as duas e deleitar-nos  com   este belo dia? Pois tenho  que aproveitar  esta pausa enquanto  o comboio está parado porque vai haver um dia que ele chega ao fim da linha. Eu sei que me estás a entender e aqui termino onde comecei. Porque o fim da linha pode surgir a qualquer altura  e o tempo começa a minguar e na minha vida ainda há muito que fazer.
Um grande beijinho da Tia e até amanhã.