Os trabalhos de casa do menino Paulinho
Como era habitual o Sr. Fausto
passava pelo escritório do meu pai para adquirir os documentos necessários e posteriormente
entregá-los aos clientes.
Nesta altura do ano chovia bastante e fazia-se sentir em todo país um frio que penetrava os ossos, de tal forma que só se estava confortável com um bom aquecedor bem próximo de nós.
O meu pai tinha o seu escritório há muitos anos no centro da cidade do Porto e exercia advocacia, ainda não tinha eu nascido. A minha mãe morrera quando eu tinha dez anos e desde essa data fatídica que o meu progenitor levava-me com ele para o seu local de trabalho e ajustava assertivamente com a Tia Dolores as horas exatas em que ela tinha que ir buscar-me e levar-me á escola.
……
Desde que mamã tinha morrido que
o meu mundo tinha encolhido. O Papá tinha deixado de fazer festas em nossa
casa, desistira de comemorar os aniversários, de celebrar os dias das
peregrinações tradicionais da nossa terra, de convidar a família para jogar
jadrez que ele tanto gostava, de chamar as minhas primas e os meus primos na
altura do Carnaval em que nos mascarávamos. E para agravar mais a situação resolvera vender a nossa casa de férias situada em Coimbra.
Afastara-se de toda a família restando apenas os seus clientes, a secretária dele a menina Patrícia , a minha tia Dolores, a bábá Teresa a nossa cozinheira, o sempre sisudo Sr.Fausto e eu.
Papá não podia saber o quanto eu detestava o sisudo. Sempre que ele entrava no escritório sorria para mim com a boca fechada e cumprimentava-me cordialmente:
- boa tarde menino Paulinho. Como tem passado?
E eu sorria secamente e respondia:
- Bem, obrigado Sr. Fausto.
Ele entrava para a salinha que dava acesso ao escritório e pedia licença à menina Patrícia para entrar. Fechava a porta do escritório delicadamente para não me assustar e ficava eu na salinha sentado numa secretária antiga a fazer os trabalhos de casa sozinho durante uma eternidade.
Mal o sisudo entrava o meu
sossego era permanentemente abalroado por uns barulhos estranhos, alguns risinhos
dele e da menina Patrícia e um ranger de
mobílias.
….
Esta situação arrastou-se durante muito tempo mas somente quando papá não se encontrava no escritório.
O problema era que eu perdia o
raciocínio e não conseguia fazer as contas de dividir nem de multiplicar. E quando
papá chegava ouvia um valente sermão.
Entretanto chegava a minha tia Dolores e pregava-me uma homilia obrigando-me a fazer os trabalhos de casa debaixo de uma grande pressão.
Tentei várias vezes contar à minha tia que não conseguia concentrar-me porque ouvia uns barulhos esquisitos. E sempre que tentava desenvolver a narrativa dos ruídos acabava por levar um puxão de orelhas.
Dizia ela que eu inventava histórias para não cumprir com os meus compromissos escolares. E como se não bastasse contava ao meu pai que eu tinha uma grande imaginação e se continuasse desse jeito que a melhor solução seria arranjarem-me uma educadora para auxiliar-me nas tarefas escolares.
Papá como era muito somítico nunca concordava com a Tia Dolores até que um dia a titi o convenceu.
….
Nunca me esqueci daquele dia quando a educadora apresentou-se no escritório. Não era mais bonita que a mamã mas lembro-me que o papá ficou muito embaraçado e nervoso. Quando a Titi chegou olhou-a de soslaio, não sorriu e estiveram todos muito tempo a conversarem no escritório de porta fechada.
Entretanto fiquei
sentado na minha antiga secretária sossegadamente a cumprir com o meu dever, fazendo os trabalhos de casa, que pareceu-me uma perpetuidade, quando
finalmente eles saíram papá disse-me:
- Paulinho a partir deste dia a menina Josefina vai-te auxiliar nos teus trabalhos escolares.
Todos sorriram e eu também porque
finalmente tinha-me libertado do sisudo, do ranger das mobílias e daqueles incomodativos
risinhos dele e da menina Patrícia.
….
Agora papá não me levava para o escritório. Eu
Ficava a estudar em casa com a menina Josefina, tinha a companhia da baba Teresa
e a Titi levava-me á escola como sempre fizera.
Durante os primeiros meses do ano lectivo tudo correu maravilhosamente e nunca mais vi o sisudo que o detestava mais que anteriormente, pois devido a ele só estava com o meu papá à noitinha.
Faltavam ainda dois meses para o ano lectivo terminar quando a Titi foi substituída pelo meu pai.
Foi uma grande tristeza para mim porque ela apesar de ser muito resmungona trazia-me chocolates e não comentava isso com o meu pai porque ele opinava que faziam mal mas Titi não partilhava da mesma opinião.
Um dia Titi apareceu em nossa casa e chorou muito e papá resmungou com ela e eu não percebi o porquê, pois os adultos são complicados e fiquei aborrecido com ele.
Os meus trabalhos escolares estavam a complicar a minha vida, tinha ficado livre do sisudo mas não queria ficar sem a minha tia.
Papá levava-me todos os dias à escola e a menina Josefina encarregava-se de ir lá buscar-me.
Titi de quando em vez passava por nossa casa e ficava muito contente porque eu tinha melhorado muito na matemática e no Português.
….
Até que um dia estava a menina Josefina a explicar-me o sinónimo da palavra “ paciente” quando papá chegou e murmurou-lhe qualquer coisa a ouvido e entraram na sala adjacente e disseram-me para eu continuar a estudar.
E assim se repetiu aquela
situação até ao final do ano lectivo.
E sempre que o papá se aproximava da menina Josefina segredava-lhe ao ouvido e fugiam ambos para a outra saleta.
E ficava eu sozinho na secretária , perplexo, meio tonto, sem perceber coisa alguma. As horas passavam e a minha angústia aumentava. O mesmo problema voltava. O meu pai era igual ao sisudo.
Os meus ouvidos escutavam uns
ruídos e risos esquisitos que não me deixavam concentrar nas minhas tarefas escolares, deixando-me consternado e não somente detestava o sisudo
como papá também.
….
Desde então muita coisa na minha vida aconteceu. Cresci, amadureci, namorei, licenciei-me e exerço advocacia. Casei, fui pai e assim a vida foi decorrendo.
Passaram-se mais de vinte anos desde esse tempo de menino e ainda hoje recordo com graça e humor toda aquela situação, como a vivi e senti naquela altura.
Atualmente Josefina faz parte da nossa família e ficou a substituir a minha querida mãe.
O Sr. Fausto é um senhor idoso e continua
solteiro e a “ menina “ Patrícia é casada, teve um filho e tem um neto da idade
da minha filha Maria.
A minha imprescindível tia Dolores morreu no ano passado e a bába Teresa faleceu, era eu ainda adolescente.
O meu pai continua casado com a
Josefina, ambos com sessenta anos e nunca tive coragem para lhe contar acerca do
romance engraçado que existiu entre o Sr Fausto e a menina Patrícia, embora
naquela altura não entendesse bem a situação mas com o passar dos anos
apercebi-me naturalmente do que tinha acontecido, que mereceu ser contado aqui
de uma forma divertida.
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