Querida Tia
É tão bom saber que uma pessoa consegue ressuscitar tantas vezes
quantas quisermos. Precisamos é de ter muita força, determinação e perseverança. È como
o nascer do sol que surge todas
as manhãs e é lhe indiferente se chove, se faz frio ou
calor, se os homens estão tristes ou alegres, em paz ou em guerra . Esses caprichos não lhe interessam. Ele simplesmente
aparece e é exacto, até ao contrário
acontecer (defendido por David Hume) , mas isto é outra história. Portanto
temos que lhe seguir as pisadas nesta exclusiva peculiaridade, desabrochar e viver todos os
dias.
Claro que tu sabes Tia ou não
fosses tu a ensinar-me muita coisa. Uma delas é tornar as adversidades em
pontos fortes porque a coragem não pertence exclusivamente aos guerreiros ou
aos soldados que em nome da pátria ou para defender as sua convicções ou ideais
não se “importam” de perder a vida. Estou
a ser injusta, quem quer perder a vida? Penso que todo o individuo ama a sua
própria vida mas a conjuntura ou o paradigma em que ele ou o seu país se encontra assim o sujeita. E assim vidas se dissipam.
Esta palavra coragem também pode
associar-se a todos nós, pessoas simples,
igualmente combatentes que
travamos e lutamos diariamente com muitas
contrariedades. È evidente que uma guerra feita com armas que sustentam interesses políticos, religiosos e sociais é
diferente. É devastadora, sanguínea, cruel e desumana mas a nossa luta diária
de uma outra forma também não o é ? Aquela em que nos enredamos todos os dias, horas, minutos e
segundos, também é bárbara. Uma batalha dia após dia,
noite após noite e se não tivermos cuidado devora-nos e
corrompe-nos silenciosamente. Tu sabes Tia do que eu estou a falar ou não fosses
tu uma guerreira, uma lutadora feroz, enfim uma sobrevivente.
E como só tu sabes que para
vencer os obstáculos temos que usar a persistência, a sabedoria, o amor e
também dizer não a muitas coisas, pois
ser mãe, esposa, filha, prima e sei lá mais o quê é preciso muita perícia, destreza e inteligência.
Ensinam-nos na escola, na
faculdade, nos colégios muitas teorias mas nenhum deles tem um livro com instruções para gerir estas graduações próprias e
intrínsecas á vida. Se assim fosse não haveria tantos conflitos familiares e
profissionais. Ou
haveria?
.
Minha doce tia, hoje quero-te
dizer que finalmente cheguei ao meu destino de férias e tu sabes qual é. Aqui
está um dia maravilhoso, cheio de sol e uma temperatura amena. Como é possível
o ser humano esquecer-se do quanto é suave e delicioso este sol e mar
que acalenta-nos, adormece-nos e suaviza cada partícula do nosso ser? E renascemos, nascemos, rejuvenescemos e florimos novamente e finalmente deixamos de pensar na labuta do dia a dia.
O nosso coração dá de si outra vez, palpitando ou batendo e um
desejo enorme abraça-nos e envolve-nos num enternecimento tal que
só apetece amar tudo e todos e quem sabe apaixonarmo-nos de novo.
Pelo um príncipe ? Talvez. Quem sabe tia? Quem sabe? O meu em breve vem ter comigo e traz os nossos passaritos.
Tu sabes que eu estou a brincar e bem sei que estas coisas
de coração são muito delicadas e labirínticas. Se nos distrairmos um pouco e
não estivermos atentos ao que se passa ao nosso redor, dentro da nossa família
ou do nosso lar as
consequências podem ser desastrosas. O ser humano está sempre insatisfeito
pois esta é uma característica que lhe
é inerente.
Por isso eu digo várias vezes que temos que acender sempre a tal luzinha. Aquela que ilumina e mantém o nosso ser e a nossa morada
em harmonia. Ah! Tia , lar doce lar! Lembras-te? O Tio diz isto
muitas vezes.
Já dizia a Avó Maria que quem soube durante toda a sua vida
preservar o que tem e não se referia aos bens materiais, embora também precisemos deles, mas mencionava como prioritário as amizades e os
afetos é sem dúvida aquele que possui o melhor e o maior tesouro do mundo.
Estás a pensar que tenho que ter juízo? Eu sei tia mas na maioria
das vezes no aconchego do nosso lar a nossa lamparina quase que se apaga e é
necessário revitalizá-la e tu docinho és perita nisso. Se não regarmos o nosso
jardim as flores murcham e em qualquer esquina ou recanto pode aparecer
alguém que nos faça mudar de rumo ou de percurso.
Mas eu só penso nos meus passaritos. Eles estão bem e por
eles eu vou até ao fim do mundo, por isso não te preocupes porque eu não estou
disponível para um novo capitulo nessa área e quero-te dizer o quanto
aqui, neste recanto paradisíaco estou a sentir-me jovial e fresca. Eu não
quero trocar de ninho porque o meu está confortável e cheio de
bem-querer.
E entretanto digo-te que nestes meus voos passam-se
coisas muito engraçadas que quero partilhar contigo.
Estou neste momento sentada, num bar muito soberbo situado à beira mar e estou-me a sentir uma autêntica adolescente. Ao meu lado estão três cangurus todos sorridentes e amáveis querendo meter conversa ardil comigo. Parecem uns garotos querendo mostrar as suas bravuras. È engraçado tia mas o homem não cresce, neste capitulo não amadurece, pode sim envelhecer e tornam-se tão impertinentes! E ás vezes até engraçados e imaturos.
Lembras-te do tio naquela tarde de Verão que cismou que os calções
verdes lhe serviam e acabou por os vestir e andou com eles rasgados no rabito
durante toda a tarde? E que os vizinhos fartaram-se de rir mas ele mesmo assim
não os tirou?
Quando me recordo dessa tarde desato-me sempre a rir.
E a tia sempre atrás dele com vergonha que lhe vissem o rabo? E o tio
Lucas para o apoiar rasgou também os calções dele e foram até ao café do Sr.
Alberto? Lembras-te ? E cheios de razão comentavam em voz alta que a um homem
tudo fica bem. E a Dª Rosária farta de os escutar disse-lhes
que não gostava de ver rabos flácidos e eles responderam que
flácida era avó dela? Foi uma tarde tão divertida tia.
Mas mudando de assunto tia, não nego que estou radiante e com o
meu ego aos pulos, imagina. Já não tenho idade para estas coisas mas que isto
me diverte e tem a sua piada, isso tem. Nestes momentos esquecemo-nos dos
quilos que temos a mais, da celulite, das angustias e de tantas coisas que
nós mulheres inventamos e que acabamos por massacrarmo-nos sem
necessidade.
Estou com aquela camisola azul, cor do céu que me deste e
aproveito para agradecer-te porque fica-me muito bem. O azul dela combina com
os meus olhos, deve ser por isso e também porque sinto-me muito feliz e irradio
cá para fora todo este sentimento de plenitude, de tranquilidade e de paz
juntamente com algo de enigmático que faz com que os outros se sintam bem com a
minha presença.
Sei querida no que estás a pensar mas digo-te que eu não trocava
esta fase da minha vida por outra qualquer que tenha vivido no passado. Estou
mais gordinha? Mais velha ? Claro que estou mas a sabedoria da idade compensa
isso tudo. E também quero-te dizer que quando acabar as férias vou deixar
de ir ao ginásio em prol de umas boas caminhadas. Quero ver o dia, o sol, o
cair da noite, respirar a vida e aproveitar cada momento fresco e novo que ela
me traz.
E agora querida tia vou terminar com
o mesmo estado de espírito com que comecei. O sol está a pôr-se. O
clima está esplêndido, agradável e eu sinto-me perdidamente encontrada e restabelecida. Vou para o Hotel que fica aproximadamente a cinco minutos
daqui e quando lá chegar tomo um bom
banho e vou vestir aquele vestido lindíssimo
preto que tu ajudaste-me a comprar para
celebrar esta noite tão especial.
Tenho que apressar-me pois o meu príncipe está a chegar com
os meus passaritos numa linda e bela carruagem puxada por dois magníficos cavalos.
E assim começa mais uma etapa da minha vida em que eu
deposito nela toda a minha fé. Espero que seja um período cheio de prosperidade
e que dure eternamente e assim faço jus ao que avó Maria dizia, preservo
o que tenho e vou acendendo uma velinha, hoje, amanhã e sempre ...e assim é a vida a minha
vida, apesar das tempestades continua toda iluminada.
Muitos beijinhos desta tua
sobrinha que muito te admira,
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