segunda-feira, 15 de abril de 2013

Á minha querida sobrinha



Á minha querida sobrinha
Dizia a tia da Ana  com a sua habitual perícia:
Um dia quando fores mais velha vais  confrontares-te com o reboliço e com a agitação  desta  vida e há  sempre   um momento em que necessitamos desesperadamente   de fazer um interregno  ou um balanço  para pensar sobre o nosso  legado.. Uma das primeiras  coisas que  constatamos é que   o tempo passou tão rapidamente, que não viveste tudo, que muito ainda está por   fazer e que o prazo começa a escassear   ou então também se passa o contrário que finalmente chegou a hora de  assentar , que já contribuíste com a tua parte  como cidadã do mundo e resolves dedicar-te á família, isto é,  se não tiveste oportunidade   de o fazer ou então  se o fizeste talvez possas  dedicares-te  a ti mesma ou aos amigos mais próximos.


E nesse dia porque há sempre um dia em que fazemos um julgamento a nós mesmos (a apreciação dos outros quando nocivos ou não instrutivos  não  interessam, são desprovidos de valor), refletimos  ponderáramos  sisudamente  sobre esta jornada que percorremos diariamente e as  recordações assolam-te. Umas são avassaladoras, outras dolorosas mas também existem aquelas que ainda hoje te fazem vibrar.   


E recordas-te porque recordar também é viver desde que não fiques por lá, desde que não permaneças lá, mas enquanto revives aqueles momentos dás por ti a fazer comparações inevitáveis. O que vês? Principalmente se   estás a viver o presente   ou se este não passa de quimeras e  que simplesmente não estás a usufruir dele devidamente.  

Lembras-te de ti mais nova, não me refiro apenas ao aspecto físico mas aos teus pensamentos, ao teu modo de encarar a vida e às suas vicissitudes. E reparas que no passado os teus pensamentos a  tua  forma de vivenciar as coisas eram muito  diferentes e algumas continuaram iguais.
Algumas crenças e ideais transportámo-los  para a nossa idade adulta outras foram morrendo pelo caminho.

As agruras desta jornada por vezes levam-nos a cortar com muitas ambições  ou aspirações mas outras quezílias  fazem  fortalecer ainda mais os nossos sonhos, a não desistir deles e a continuar.

Mas minha sobrinha  ás vezes o fardo fica bem pesado que o que nos fortifica é   sempre algo a contrariá-lo , o nascimento de um filho, de um neto, de um sobrinho,   um amor proibido  que se viveu e que nos elevou a nossa auto-estima, um primeiro ou um ultimo amor que nos fez sentir  num paraíso,umas boas e quantas  amizades,um sarau animador em casa da família e amigos, uma viagem de sonho com o nosso companheiro, um fim de semana longe de tudo e de todos, um simples pôr ou nascer  do sol, aquela chuva a cair e os lençóis quentinhos a enrolar-nos, uma louquice qualquer para sair da rotina, umas tantas malandrices, sei lá …muita coisa boa…
  
E quando voltámos ao presente o que vimos? Vimo-nos a nós nesta fase adulta. E o que somos nós agora?  Somos adolescentes inacabados  com mais uns quilos de responsabilidade ou com um caderno abarrotar  de  compromissoso e encargos.  Somos o ontem e o hoje . Somos o medo, a responsabilidade, a prudência, a loucura, as convicções, a criança,o jovem, o  adulto  a alegria e a tristeza, as inseguranças e tudo o mais que inventamos. Sim porque o Homem inventa e a obra cresce. Somos peritos  a fabricar dificuldades mas também bons a  construir sonhos.

Mas o que mais me assusta são aqueles que nesta caminhada estão  mortos ou  moribundos. Estes pelas circunstâncias ou não da vida tornaram-se azedos, tristes, sombrios…e foram comidos pela vida.


Tem cuidado sobrinha tenta sempre fugir deste atalho…porque ele vai aparecer-te muitas vezes e tentar engolir-te.  É neste trilho que aparece os julgamentos alheios maléficos. Este tipo de juízo não nos interessa, até  porque cada um é juízo de si mesmo. A nossa vida é apenas nossa. O nosso Juízo é a nossa inteligência que por vezes se afasta e é aí que surgem os nossos tropeções. Mas a vida ensina-te que tens e deves levantar-te.  


Enfim, chegamos á fase madura com uma soma de experiências acumuladas, fracassos que não passam de lições mal estudadas e que acabamos por os aperfeiçoar e fazer tudo de novo , recomeçando; somos um acumular de sucessos, erros, ignorância …mas temos que passar á fase seguinte.

  Tudo isto minha querida sobrinha para dizer-te ou responder-te á tua pergunta,  que como tu eu também vivi o meu primeiro amor, com todas as dúvidas que ele traz, com toda a melodia harmoniosa que só ele por ser o primeiro sabe tocar, e que nos faz ouvir todos os sinos a badalar, ver  tudo mais  cintilante, a terra, o mar, o rio, as flores, as pessoas. Senti r e ver amor e sorrisos em todos os rostos que encontrava. Enfim um estado de graça e de plenitude.

E lembro-me de querer ficar lá para sempre naquele instante e naquele momento. Mas temos que avançar querida  porque a vida não estagna, não cessa eternamente num determinado local, ela continua sempre na sua mutabilidade. Ela é inconstante e só faz algumas paragens e depende de ti ou não trazeres o melhor ou o pior delas.

Portanto pequenina  não faças muitas perguntas porque o teu comboio parou nessa estação e eu aconselho-te a saborear e a desfrutar tudo de bom que essa paragem te traz mas toma cuidado porque a ponderação e a medida certa das coisas fazem todo o sentido em determinados âmbitos como o amor, não te percas no primeiro mas também não te acanhes e lembra-te que outras paragens vão suceder  até ao fim da tua vida e temos que saber  dosear bem as coisas,  que um pouco de loucura não faz mal a ninguém e que ser criança é renascer em cada feito e  se não agires com sabedoria aprendes numa outra interrupção…porque afinal a vida é errar, aprender e assim sucessivamente.


Minha querida sobrinha eu também precisava de um conselho teu. O teu tio cada dia está mais rabugento e eu sem paciência para o aturar. Esta é a minha paragem e vou ter que a saborear da melhor forma. Vamos passear as duas e deleitar-nos  com   este belo dia? Pois tenho  que aproveitar  esta pausa enquanto  o comboio está parado porque vai haver um dia que ele chega ao fim da linha. Eu sei que me estás a entender e aqui termino onde comecei. Porque o fim da linha pode surgir a qualquer altura  e o tempo começa a minguar e na minha vida ainda há muito que fazer.
Um grande beijinho da Tia e até amanhã.

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