Á minha querida sobrinha
Dizia a tia da Ana
com a sua habitual perícia:
Um dia quando fores mais velha vais
confrontares-te com o reboliço e com a
agitação desta vida e há sempre um momento em que necessitamos
desesperadamente de fazer um interregno ou um balanço para pensar sobre o nosso legado.. Uma das primeiras coisas que constatamos é que o tempo passou tão rapidamente, que não
viveste tudo, que muito ainda está por fazer e que o prazo começa a escassear ou então também se passa o contrário que finalmente
chegou a hora de assentar , que já
contribuíste com a tua parte como cidadã
do mundo e resolves dedicar-te á família, isto é, se não tiveste oportunidade de o fazer ou então se o fizeste talvez possas dedicares-te
a ti mesma ou aos amigos mais próximos.
E nesse dia porque há sempre um
dia em que fazemos um julgamento a nós mesmos (a apreciação dos outros quando nocivos
ou não instrutivos não interessam, são desprovidos de valor), refletimos
ponderáramos sisudamente sobre esta jornada que percorremos diariamente
e as recordações assolam-te. Umas são
avassaladoras, outras dolorosas mas também existem aquelas que ainda hoje te
fazem vibrar.
E recordas-te porque recordar
também é viver desde que não fiques por lá, desde que não permaneças lá, mas
enquanto revives aqueles momentos dás por ti a fazer comparações inevitáveis. O
que vês? Principalmente se estás a
viver o presente ou se este não passa
de quimeras e que simplesmente não estás
a usufruir dele devidamente.
Lembras-te de ti mais nova, não
me refiro apenas ao aspecto físico mas aos teus pensamentos, ao teu modo de
encarar a vida e às suas vicissitudes. E reparas que no passado os teus
pensamentos a tua forma de vivenciar as coisas eram muito diferentes e algumas continuaram iguais.
Algumas crenças e ideais
transportámo-los para a nossa idade
adulta outras foram morrendo pelo caminho.
As agruras desta jornada por
vezes levam-nos a cortar com muitas ambições
ou aspirações mas outras quezílias
fazem fortalecer ainda mais os
nossos sonhos, a não desistir deles e a continuar.
Mas minha sobrinha ás vezes o fardo fica bem pesado que o que nos fortifica é sempre algo a contrariá-lo , o nascimento de um filho, de um neto, de um sobrinho, um amor proibido que se viveu e que nos elevou a nossa auto-estima, um primeiro ou um ultimo amor que nos fez sentir num paraíso,umas boas e quantas amizades,um sarau animador em casa da família e amigos, uma viagem de sonho com o nosso companheiro, um fim de semana longe de tudo e de todos, um simples pôr ou nascer do sol, aquela chuva a cair e os lençóis quentinhos a enrolar-nos, uma louquice qualquer para sair da rotina, umas tantas malandrices, sei lá …muita coisa boa…
E quando voltámos ao presente o que
vimos? Vimo-nos a nós nesta fase adulta. E o que somos nós agora? Somos adolescentes inacabados com mais uns quilos de responsabilidade ou
com um caderno abarrotar de compromissoso e encargos. Somos o ontem e o hoje . Somos o medo, a
responsabilidade, a prudência, a loucura, as convicções, a criança,o jovem, o adulto a alegria e a tristeza, as inseguranças e tudo
o mais que inventamos. Sim porque o Homem inventa e a obra cresce. Somos
peritos a fabricar dificuldades mas
também bons a construir sonhos.
Mas o que mais me assusta são
aqueles que nesta caminhada estão mortos
ou moribundos. Estes pelas
circunstâncias ou não da vida tornaram-se azedos, tristes, sombrios…e foram
comidos pela vida.
Tem cuidado sobrinha tenta sempre
fugir deste atalho…porque ele vai aparecer-te muitas vezes e tentar engolir-te.
É neste trilho que aparece os
julgamentos alheios maléficos. Este tipo de juízo não nos interessa, até porque cada um é juízo de si mesmo. A nossa
vida é apenas nossa. O nosso Juízo é a nossa inteligência que por vezes se
afasta e é aí que surgem os nossos tropeções. Mas a vida ensina-te que tens e
deves levantar-te.
Enfim, chegamos á fase madura com
uma soma de experiências acumuladas, fracassos que não passam de lições mal
estudadas e que acabamos por os aperfeiçoar e fazer tudo de novo , recomeçando;
somos um acumular de sucessos, erros, ignorância …mas temos que passar á fase
seguinte.
Tudo isto minha querida sobrinha para dizer-te ou responder-te á tua
pergunta, que como tu eu também vivi o
meu primeiro amor, com todas as dúvidas que ele traz, com toda a melodia
harmoniosa que só ele por ser o primeiro sabe tocar, e que nos faz ouvir todos
os sinos a badalar, ver tudo mais cintilante, a terra, o mar, o rio, as flores,
as pessoas. Senti r e ver amor e sorrisos em todos os rostos que encontrava.
Enfim um estado de graça e de plenitude.
E lembro-me de querer ficar lá
para sempre naquele instante e naquele momento. Mas temos que avançar querida porque a vida não estagna, não cessa
eternamente num determinado local, ela continua sempre na sua mutabilidade. Ela
é inconstante e só faz algumas paragens e depende de ti ou não trazeres o
melhor ou o pior delas.
Portanto pequenina não faças muitas perguntas porque o teu
comboio parou nessa estação e eu aconselho-te a saborear e a desfrutar tudo de
bom que essa paragem te traz mas toma cuidado porque a ponderação e a medida
certa das coisas fazem todo o sentido em determinados âmbitos como o amor, não
te percas no primeiro mas também não te acanhes e lembra-te que outras paragens
vão suceder até ao fim da tua vida e
temos que saber dosear bem as coisas, que um pouco de loucura não faz mal a ninguém
e que ser criança é renascer em cada feito e
se não agires com sabedoria aprendes numa outra interrupção…porque
afinal a vida é errar, aprender e assim sucessivamente.
Minha querida sobrinha eu também
precisava de um conselho teu. O teu tio cada dia está mais rabugento e eu sem
paciência para o aturar. Esta é a minha paragem e vou ter que a saborear da
melhor forma. Vamos passear as duas e deleitar-nos com
este belo dia? Pois tenho que
aproveitar esta pausa enquanto o comboio está parado porque vai haver um dia
que ele chega ao fim da linha. Eu sei que me estás a entender e aqui termino
onde comecei. Porque o fim da linha pode surgir a qualquer altura e o tempo começa a minguar e na minha vida
ainda há muito que fazer.
Um grande beijinho da Tia e até amanhã.
Sem comentários:
Enviar um comentário