Era Verão e a noite estava gélida. No céu não se viam estrelas.
Estavam todos no pátio. O pátio estava sombrio.
As suas sombras circulavam de um lado para o outro. Os seus gestos tornavam-se mais visíveis no escuro.
O meu pai entrava e saía da cozinha. A minha mãe não saía do átrio e esfregava as mãos uma na outra.
O meu irmão mais novo baloiçava constantemente a perna direita.
A minha tia apertava o lenço que trazia amarrado á cabeça várias vezes. O lenço cobria-lhe o rosto.
Eu pulava e imitava o meu pai. Entrava na cozinha. Estava fria. As janelas encontravam-se fechadas com portadas de madeira. A luz era ténue. A água para o café fervia.
A minha tia acabava de entrar na cozinha. As suas socas de madeira ecoavam no chão. Fez o café.
Apagou o fogão. Resmungou para mim. Fiz-lhe caretas. O seu rosto estava carrancudo. Limpava o nariz ao lenço que trazia na cabeça. Corri atrás dela.
Cá fora estava um gelo. Recebemos ordens do meu pai para recolhermos.
Fui para a sala grande. A sala era antiga e enorme. Tinha duas camas. Deitei-me numa delas. A minha mãe deu-me um beijo. O meu pai murmurou-me algo. Foram ambos para o quarto. Escutava-os. A voz do meu pai sobrepunha-se à da minha mãe. Falavam do meu irmão mais velho.
Ele ia deixar a família. Ele era casado. Os filhos iam com ele mais tarde. A esposa pertencia ao passado.
A sua paixão chamava-se Maria. Maria era Alentejana. Maria fazia parte do seu presente. Era uma história de amor. Um amor violento. Arrebatador. Acontecera- diziam os meus pais.
O amor é paradoxal.
Um drama para todos nós e uma felicidade para ele e para a Maria.
A minha mãe chorava. Perdia o seu filho mais velho porque meu pai não aceitava a situação.
Enrolei-me nos cobertores. A cabeça doía-me. Os olhos ardiam-me. Chorava.
O Alentejo ficava longe. A saudade já se fazia sentir. Estava tonta. Tinha muito sono. O meu irmão mais velho sorria-me. O cansaço era enorme e eu já não distinguia o sonho da realidade.
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