Saudade
Confesso
que me lembro raramente de ti porque senti que quiseste partir, por isso
respeitei desde sempre a tua vontade e quando recordo o teu rosto vem-me sempre
á memória umas feições tranquilas, serenas e felizes.
Lembro-me
como fiquei admirada e contente por ver finalmente que tinhas encontrado a paz
que tanto almejavas.
Eu
sei que pode parecer confuso e paradoxal pois quando alguém que nos é tão
próximo e perece e sendo o nosso pai, eu deveria chorar e a
tristeza invadir-me até aos dias de hoje mas o teu caso foi diferente.
Senti que a morte para ti foi talvez uma opção e que nunca te assustou, digo
isto porque em muitas coisas são tão parecida contigo e que em muitas situações
opto por desistir. É mau ? É uma má opção ? Talvez. Apesar de tudo
continuei e tu partiste.
Tu
escolheste partir e não foi de repente mas progressivamente e infelizmente eu
não consegui percepcionar ou captar o teu estado de alma mas
ouve quem a sentisse e eu não estava sintonizada na mesma estação que tu
estavas e como lamento porque talvez pudesse fazer algo ou talvez não e
confesso que te vi tantas vezes a sonhar por metas umas tangíveis e
outras não e continuavas sempre com um sorriso maroto nos lábios.
Lembrei-me
de te escrever hoje porque senti saudades tuas. Estamos no Verão e
com a chegada deste avizinham-se as romarias ou as festas tradicionais
das aldeias e das vilas e ao visitar a tua última morada deparei-me com
os preparativos do tradicional e habitual festejo desta terra
e como era uma das tuas preferidas a emoção apertou forte e a tua
recordação assolou-me de tal forma que revivi de como tu me pegavas na mão
quando era eu ainda menina e levavas-me a passear por entre risos e
gargalhadas desta gente que comemora com muita paixão este tipo de
festividades.
Lembro-me
que não gostava que tu parasses para conversar com alguém e sempre
gostaste de o fazer e eu não tinha paciência para tal como é habitual nas
crianças irrequietas e então fazia birra quando paravas. Era mesmo pequenina,
teria uns dez anos, por aí. Não sei o porquê destas lembranças depois de tantos
anos já passados. Recordo-me também daquelas barracas de farturas e
daqueles cafés ambulantes que servem o sempre eterno Sumol que hoje em dia os
meninos continuam a preferir e tu também tinhas uma inclinação por esta
bebida.
Nunca
pensei dizer ou mencionar esta palavra que raramente a uso porque só a uso
quando a sinto e não a vulgarizo como acontece muitas vezes no quotidiano, nos
filmes, nas novelas e afins, quero-te dizer que ainda te amo muito meu
querido pai. Se foste perfeito ? Quem é perfeito? Citem-me alguém mas não o
quero conhecer. È claro que há atitudes que nos magoam ou que não se coadunam
com a nossa personalidade e entramos em conflito.
Confesso
que contigo entrei muitas vezes em conflito. Sim, muitas vezes e quantas
vezes desejei ter um pai perfeito ou diferente mas com o passar dos anos
vi que isso é uma quimera ou uma utopia mas estas coisa nunca se vê de
imediato pois temos que nos distanciar no tempo e então é que conseguimos
analisar determinadas situações.
Reconheço
também que deixavas-me fazer tudo o que eu queria e houve
determinadas situações relevantes que não o deverias
ter feito mas a vida é mesmo assim e com o passar dos anos, nos mais
recentes, eu sucumbia aos teus caprichos de velhinho porque
inconscientemente sabia que a morte estava mais próxima do que em qualquer
altura da tua vida. E também percebi que eu era a tua querida menina, a única,
e foi muito mesmo muito bom amar-te assim ainda em vida e isso foi recíproco e
talvez por isso tenho saudades tuas.
Adeus pai, até a um dia. Sei-o agora que as tuas lutas aqui neste mundo
terminaram. Um grande beijo daquela que te ama muito.
Muito bonito
ResponderEliminar"(...)eu sucumbia aos teus caprichos de velhinho porque inconscientemente sabia que a morte estava mais próxima do que em qualquer altura da tua vida".
ResponderEliminarMuito bem escrito :)