Eu
e a minha prima
Era Verão.
Nesta estação a minha prima Célia
costumava passar uns dias connosco.
Ela morava na cidade.
Desfrutar uns dias na sua companhia
trazia-me ansiedade e alegria.
A casa dos meus pais era muito antiga e
grande. Tinha um pátio agradável com um tamanho razoável assim como o quintal.
O alpendre estava inserido no campo e dava para a rua principal. Podíamos
brincar à vontade e usufruir do campo e de caminhadas até à praia.
A Célia chegava no fim de semana. Os dias
custavam a passar e arrasavam com a minha paciência.
Eu já tinha feito planos para as nossas
férias.
Um turbilhão de sentimentos
inquietavam-me.
Finalmente a minha prima chegava a nossa
casa.
A festa que fazíamos uma à outra provocava
de imediato uma alteração de humor na minha tia.
Depois de todas as manifestações
esfuziantes corríamos pela casa dentro até à sala grande. Esta era a sala maior
e a mais velha da casa. Dormíamos nesta sala ou no quarto da minha tia. O
quarto tinha duas camas. Uma era de ferro e a outra de madeira. Nesse dia
conversamos sobre a escola, os colegas novos e de malandrices.
No segundo dia da sua estadia apenas
tínhamos tempo para cochichar. A concretização dos nossos planos para as férias
começavam.
Ao entardecer a minha mãe começava a
preparar o jantar enquanto eu e a Célia brincávamos e segredávamos. O
"Moleque" rabeava. Este era o nosso cão rafeiro mas destemido.
O jantar era servido no pátio sendo este
coberto por uma ramada cheia de cachos de uvas que nos proporcionava muita
sombra e frescura.
A refeição decorria tranquilamente até ao
momento em que o primeiro filho do meu irmão mais novo, ainda bebé começava a
chorar e o meu pai tentava acalmá-lo.
A minha mãe combinava coisas com a minha
tia para o dia seguinte. A minha prima e eu saboreávamos com satisfação as
iguarias. E o nosso rafeiro ao longe deleitava-se com alguns ossos e outros
petiscos.
Depois do jantar tínhamos sempre um ou
dois vizinhos para tagarelar. Quando eles iam embora o sarau continuava no
alpendre.
E num instante a noite chegava.
Os meus pais fechavam as portas da casa e
todos se recolhiam para os seus quartos.
A minha mãe e a minha tia antes de se
deitarem verificavam se estávamos a dormir. O silêncio seguido de uma certa
quietação faziam com que as duas regressassem aos seus quartos.
Sentia-se na casa toda uma grande
serenidade. Ouvia-se ás vezes o ranger das mobílias antigas e o ladrar do nosso
cão.
Finalmente chegava o nosso momento.
Saíamos cautelosamente da cama. Caminhávamos com precaução até à cozinha.
Abríamos a porta desta que dava para o campo.
O cão começava a ladrar quando nos avistava,
mas depois ficava silencioso.
O luar iluminava o quintal todo. As
diabruras começavam. Entre risos e conversas sem nexo depenávamos as macieiras
e as pereiras.
A maioria da fruta era recolhida para
sacos juntamente com pedaços de terra que tinham como destino derrubar ao acaso
determinadas pessoas.
Algumas maçãs ou eram devoradas
ou simplesmente trincadas e deitadas fora.
Chegava a hora de utilizarmos a fruta com
fragmentos de terra.
Acertar na cabeça de um transeunte era o
nosso objectivo. De seguida escondíamo-nos. As nossas gargalhadas não findavam.
Corríamos o quintal todo atrás uma da
outra. Trepávamos as árvores e os muros.
Disfarçávamo-nos de
fantasmas e de espíritos mortos.
Entretanto o campo já se encontrava cheio
de pegadas e os estragos eram visíveis.
Cansadas e com sono regressávamos á cama.
Dentro de casa o silencio permanecia. Sujas mas felizes adormecíamos.
Amanhecera.
O sol entrava pela frinchas das janelas.
Fatigadas da noite anterior sentíamos o corpo dorido.
A minha tia acabava de acordar e ainda
esfregava os olhos e limpava os óculos. De seguida penteava-se e punha o lenço
na cabeça.
Na cozinha a minha mãe preparava as
grandes panelas de água quente para banharmo-nos. As toalhas do banho, o sabão,
as banheiras de plástico estavam prontas. Todas as manhãs cumpria-se com esta
rotina. As mulheres da casa tinham sempre muito trabalho.
Os nossos nomes eram pronunciados pelas
mulheres mais velhas.
Chegara a hora de sair da cama. O meu pai
preparava-se para a labuta assim como o meu irmão e a esposa. O bebé deles
dormia profundamente.
Depois do ritual do banho, tomávamos o
pequeno almoço. O cheirinho a cevada acompanhado com leite era delicioso. Os
pães com manteiga eram devorados por ambas.
A manhã decorria sossegadamente quando
começamos a ouvir vozes exaltadas vindas da oficina do meu pai. A minha mãe e a
minha tia desciam em direção à oficina. Nós ficamos em silêncio a olhar uma
para a outra muito cúmplices. Subitamente das nossas bocas soltavam-se palavras de espanto juntamente com
gargalhadas.
Passara-se pouco tempo. Entretanto a voz
da minha mãe e da minha tia ensurdecia-nos os ouvidos. Estavam bem perto de nós
aos berros. O chinelo na mão da minha mãe ameaçava-me o cu. Eu saltava e
pinchava e ela corria atrás de mim. A minha prima ouvia um grande sermão das
duas mulheres. Para completar o cenário o meu pai chegava à cozinha
prometendo-me um bofetão e a lamentar o quanto tinha sido perigoso termos
lançado para a cabeça dos vizinhos terra e fruta. O Sr. Almeida que era tão bom
homem tinha ficado com a camisola toda suja e o cabelo cheio de terra. A Dª
Augusta ficara com uma saia manchada. Estava muito zangada e ofendida
lamuriando-se.
O meu pai lastimava toda esta situação e
mencionava mais uns nomes de uns vizinhos que eu desconhecia.
Por fim tudo tinha terminado e o meu cu
ainda ardia quando começamos a ouvir a minha tia aos gritos. O quintal ou seja
as suas flores estavam todas estragadas.
A correria começava. A minha tia queria
puxar-me os cabelos e a mão da minha mãe toda imponente com o chinelo
ameaçava-me novamente.
O meu pai intimidava-me relativamente à
minha prima. O regresso à sua casa ia ser antecipado.
Todos os anos a história repetia-se e
apesar das ameaças dos meus pais , a minha prima acabava sempre por ficar em
nossa casa por muitos e muitos mais dias.
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