domingo, 6 de junho de 2010

Eu e a minha prima

 Eu e a minha prima

Era Verão.
Nesta estação a minha prima Célia costumava passar uns dias connosco.
Ela morava na cidade.
Desfrutar uns dias na sua companhia trazia-me ansiedade e alegria.

A casa dos meus pais era muito antiga e grande. Tinha um pátio agradável com um tamanho razoável assim como o quintal. O alpendre estava inserido no campo e dava para a rua principal. Podíamos brincar à vontade e usufruir do campo e de caminhadas até à praia.

A Célia chegava no fim de semana. Os dias custavam a passar e arrasavam com a minha paciência.
Eu já tinha feito planos para as nossas férias.
Um turbilhão de sentimentos inquietavam-me.

Finalmente a minha prima chegava a nossa casa.
A festa que fazíamos uma à outra provocava de imediato uma alteração de humor na minha tia.

Depois de todas as manifestações esfuziantes corríamos pela casa dentro até à sala grande. Esta era a sala maior e a mais velha da casa. Dormíamos nesta sala ou no quarto da minha tia. O quarto tinha duas camas. Uma era de ferro e a outra de madeira. Nesse dia conversamos sobre a escola, os colegas novos e de malandrices.

No segundo dia da sua estadia apenas tínhamos tempo para cochichar. A concretização dos nossos planos para as férias começavam.

Ao entardecer a minha mãe começava a preparar o jantar enquanto eu e a Célia brincávamos e segredávamos. O "Moleque" rabeava. Este era o nosso cão rafeiro mas destemido.

O jantar era servido no pátio sendo este coberto por uma ramada cheia de cachos de uvas que nos proporcionava muita sombra e frescura.
A refeição decorria tranquilamente até ao momento em que o primeiro filho do meu irmão mais novo, ainda bebé começava a chorar e o meu pai tentava acalmá-lo.

A minha mãe combinava coisas com a minha tia para o dia seguinte. A minha prima e eu saboreávamos com satisfação as iguarias. E o nosso rafeiro ao longe deleitava-se com alguns ossos e outros petiscos.

Depois do jantar tínhamos sempre um ou dois vizinhos para tagarelar. Quando eles iam embora o sarau continuava no alpendre.
E num instante a noite chegava.
Os meus pais fechavam as portas da casa e todos se recolhiam para os seus quartos.

A minha mãe e a minha tia antes de se deitarem verificavam se estávamos a dormir. O silêncio seguido de uma certa quietação faziam com que as duas regressassem aos seus quartos.
Sentia-se na casa toda uma grande serenidade. Ouvia-se ás vezes o ranger das mobílias antigas e o ladrar do nosso cão.

Finalmente chegava o nosso momento. Saíamos cautelosamente da cama. Caminhávamos com precaução até à cozinha. Abríamos a porta desta que dava para o campo.
O cão começava a ladrar quando nos avistava,  mas depois ficava silencioso.

O luar iluminava o quintal todo. As diabruras começavam. Entre risos e conversas sem nexo depenávamos as macieiras e as pereiras.

A maioria da fruta era recolhida para sacos juntamente com pedaços de terra que tinham como destino derrubar ao acaso determinadas pessoas.
Algumas maçãs ou  eram devoradas ou simplesmente trincadas e deitadas fora.

Chegava a hora de utilizarmos a fruta com fragmentos de terra.
Acertar na cabeça de um transeunte era o nosso objectivo. De seguida escondíamo-nos. As nossas gargalhadas não findavam.

Corríamos o quintal todo atrás uma da outra. Trepávamos as árvores e os muros.

Disfarçávamo-nos  de fantasmas e de espíritos mortos.

Entretanto o campo já se encontrava cheio de pegadas e os estragos eram visíveis.

Cansadas e com sono regressávamos á cama. Dentro de casa o silencio permanecia. Sujas mas felizes adormecíamos.



Amanhecera.
O sol entrava pela frinchas das janelas. Fatigadas da noite anterior sentíamos o corpo dorido.

A minha tia acabava de acordar e ainda esfregava os olhos e limpava os óculos. De seguida penteava-se e punha o lenço na cabeça.
Na cozinha a minha mãe preparava as grandes panelas de água quente para banharmo-nos. As toalhas do banho, o sabão, as banheiras de plástico estavam prontas. Todas as manhãs cumpria-se com esta rotina. As mulheres da casa tinham sempre muito trabalho.

Os nossos nomes eram pronunciados pelas mulheres mais velhas.
Chegara a hora de sair da cama. O meu pai preparava-se para a labuta assim como o meu irmão e a esposa. O bebé deles dormia profundamente.
Depois do ritual do banho, tomávamos o pequeno almoço. O cheirinho a cevada acompanhado com leite era delicioso. Os pães com manteiga eram devorados por ambas.

A manhã decorria sossegadamente quando começamos a ouvir vozes exaltadas vindas da oficina do meu pai. A minha mãe e a minha tia desciam em direção à oficina. Nós ficamos em silêncio a olhar uma para a outra muito cúmplices. Subitamente das nossas bocas soltavam-se  palavras de espanto juntamente com gargalhadas.

Passara-se pouco tempo. Entretanto a voz da minha mãe e da minha tia ensurdecia-nos os ouvidos. Estavam bem perto de nós aos berros. O chinelo na mão da minha mãe ameaçava-me o cu. Eu saltava e pinchava e ela corria atrás de mim. A minha prima ouvia um grande sermão das duas mulheres. Para completar o cenário o meu pai chegava à cozinha prometendo-me um bofetão e a lamentar o quanto tinha sido perigoso termos lançado para a cabeça dos vizinhos terra e fruta. O Sr. Almeida que era tão bom homem tinha ficado com a camisola toda suja e o cabelo cheio de terra. A Dª Augusta ficara com uma saia manchada. Estava muito zangada e ofendida lamuriando-se.

O meu pai lastimava toda esta situação e mencionava mais uns nomes de uns vizinhos que eu desconhecia.

Por fim tudo tinha terminado e o meu cu ainda ardia quando começamos a ouvir a minha tia aos gritos. O quintal ou seja as suas flores estavam todas estragadas.
A correria começava. A minha tia queria puxar-me os cabelos e a mão da minha mãe toda imponente com o chinelo ameaçava-me novamente.

O meu pai intimidava-me relativamente à minha prima. O regresso à sua casa ia ser antecipado.

Todos os anos a história repetia-se e apesar das ameaças dos meus pais , a minha prima acabava sempre por ficar em nossa casa por muitos e muitos mais dias.

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